O sistema de castas continua fazendo vítimas

Opinião / 02/10/2020 - 06h00

Vivaldo José Breternitz*

O sistema de castas é uma forma de divisão social que surgiu há cerca de dois mil anos na área que hoje compreende a Índia e regiões adjacentes.

Nele, as pessoas são divididas basicamente em cinco grandes grupos: brâmanes (sacerdotes e intelectuais), xatrias (guerreiros), vaixas (comerciantes), sudras (camponeses, artesãos e operários) e finalmente o grupo mais baixo, os dalits, também chamados párias ou intocáveis. Há milhares de subgrupos, cuja as organizações são levados em conta fatores de natureza étnica, religiosa etc.

O sistema de castas foi banido pela legislação indiana, embora sua herança ainda persista em muitos aspectos da vida cotidiana do país, onde cerca de 400 milhões de pessoas, ou 25% da população, são dalits.

Era impossível uma pessoa mudar de casta e o sistema levava os dalits a situações tais como serem proibidos de ir a regiões onde viviam pessoas de castas superiores, seus filhos não poderem estudar com crianças de outras castas e até mesmo serem obrigados a abaixar-se quando uma pessoa de uma classe superior se aproximasse, para que essa pessoa não fosse maculada pela sombra do dalit.

Agora, surpreendentemente, chega à justiça dos Estados Unidos, uma ação em que executivos indianos da Cisco, uma companhia da área de tecnologia, são acusados de adotar atitudes inspiradas no sistema de castas contra funcionário indiano da mesma empresa.

A ação é movida pelo Department of Fair Employment and Housing da Califórnia, que alega que os executivos, provenientes de uma casta superior, ridicularizavam publicamente o funcionário, um dalit, afirmando que este só conseguira estudar em função do sistema de cotas implantado pelo governo indiano em 1980.
Ao se queixar à área de recursos humanos da empresa, o funcionário recebeu a informação de que “discriminação de castas não era ilegal”. Logo, ele foi afastado da liderança dos projetos que conduzia e deixou de receber bônus; enfim, sua carreira foi congelada.

Quando a ação se tornou pública, vieram à tona outras histórias semelhantes, com cerca de 250 profissionais dalits da área de tecnologia, que trabalham em empresas como Google, Facebook, Microsoft, Apple e Netflix terem relatado abusos, humilhações e prejuízos em suas carreiras, sempre causados por indianos de castas mais altas.

É surpreendente como posturas como essas sejam adotadas por profissionais de alto nível técnico em um país evoluído como os Estados Unidos. Histórias desse tipo mostram como é importante a luta contra qualquer tipo de discriminação.

* Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie

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