O tempo virou

Opinião / 02/12/2016 - 06h00

Paulo Paiva*

Em julho deste ano, eu havia escrito, com certo grau de otimismo, que a desaceleração da economia vinha perdendo fôlego no último ano porque as taxas de variação do PIB de um trimestre ante o trimestre imediatamente anterior, embora negativas, eram consistentemente menores ao longo dos últimos 4 trimestres. O comportamento da indústria e dos serviços indicava que a recessão estava chegando ao seu final.

A divulgação nesta semana do desempenho do PIB no terceiro trimestre deste ano chegou como um balde de água fria nas brasas que acendiam a chama da retomada mais rápida do crescimento.

A queda de 0,8% no PIB no período de julho a setembro é o dobro da que ocorreu no segundo trimestre (0,4%), interrompendo período de 12 meses de desaceleração da recessão, que já perdura por 7 trimestres.

Todos os setores apresentaram retração, em comparação com o trimestre imediatamente anterior: -1,4% na agropecuária, -1,3% na indústria e -0,6% nos serviços.
Igualmente, o consumo das famílias encolheu 0,6% e o investimento, -3,1%. O consumo doméstico foi o único componente que seguiu, consistentemente, a trajetória de desaceleração na sua retração nos últimos 5 trimestres. As famílias estão lentamente voltando às compras.

O investimento, contudo, que havia indicado robusto crescimento no segundo trimestre, voltou a cair, com reflexos negativos sobre a possibilidade de crescimento da economia nos próximos meses.

A recessão que foi de 3,8% em 2015 promete não ser menor este ano. Nos últimos 4 trimestres, a economia já acumula uma queda de 4,4%. No final do dezembro, o Brasil completará dois anos seguidos de recessão!

A expectativa de uma supersafra de grãos em 2017, em torno de 213 milhões de toneladas, e a queda da inflação, que permitirá ao Banco Central intensificar cortes na taxa básica de juros, poderão contribuir para o aumento do PIB, em 2017. 

Nada que venha adicionar euforia em uma economia anêmica e que se movimenta em um ambiente político marcado por turbulências e incertezas. O tempo ruim voltou a ameaçar os céus Brasil.

(*) Professor associado da Fundação Dom Cabral. Foi ministro do Trabalho e do Planejamento e Orçamento no governo FHC

 

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