Obesidade, sobrepeso e os males sociais

Opinião / 10/12/2019 - 06h00

Henrique Eloy

O relatório The Heavy Burden of Obesity – The Economics of Prevention (O pesado fardo da obesidade – A economia da prevenção, em tradução livre), divulgado em outubro de 2019, pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apresentou dados expressivos e preocupantes relativos ao excesso de peso no Brasil. A pesquisa apontou que a população brasileira com sobrepeso tende a viver 3,3 anos a menos que a média geral e que, justamente por isso, a economia do país pode ser afetada de maneira negativa. 

É fato que o excesso de peso, há algum tempo, é considerado um malefício, por acarretar problemas conhecidos da população, como inaptidão para fazer atividade física, propensão a diferentes doenças e maiores tendências a diabetes e hipertensão. Além disso, pessoas que estão acima do peso apresentam mais riscos de sofrer derrames pela maior probabilidade de ter triglicérides e colesterol altos. 

Contudo, a população, de forma geral, ainda não compreende o quanto isso é grave. A negligência com a saúde, principal responsável pelas taxas elevadas de sobrepeso e obesidade que o Brasil apresenta, não afeta somente o indivíduo, e, sim, a sociedade como um todo. 

O relatório da OCDE elucidou muito bem o quanto essas complicações interferem na economia de um país. O estudo da organização estima que o aumento do número de pessoas acima do peso será responsável pela queda de 5% do PIB brasileiro nas próximas três décadas. A queda é consequência da série de dificuldades que o excesso de peso causa na saúde, como a qualidade do sono prejudicada, visitas frequentes a consultórios médicos e realização de exames; o que provoca ausências no serviço e diminuição de produção. 

Os dados apresentados mostram que a realidade brasileira é muito preocupante. Segundo o Ministério da Saúde, no Brasil, 55,7% das pessoas estão acima do peso, o que representa mais da metade da população. A pasta ainda projeta que, em 2022, 46,5% dos meninos entre 5 e 9 anos e 38,2% das meninas com a mesma idade sofram com o excesso de peso ou obesidade.

Ao se tratar de crianças com sobrepeso, o alerta deve ser ainda maior. A infância e a adolescência são as etapas de amadurecimento físico, psíquico e mental do indivíduo. Muitas vezes, a criança ou o adolescente com excesso de peso apresenta dificuldades na escola, principalmente, para participar das atividades físicas.

Dessa forma, ela passa a ser excluída dos times de futebol, vôlei – ou seja lá qual esporte for –, por ser mais obesa que as demais. Com o tempo, essa criança também passa a ser isolada das demais atividades sociais da escola pelos próprios colegas.

Esse isolamento social pode gerar quadros depressivos nem sempre diagnosticados, além de ser o responsável por essa criança ou adolescente apresentar rendimento escolar abaixo da média esperada. Esses fatores psíquicos e mentais influenciarão na capacidade cognitiva da criança e criarão sequelas para o resto da vida. 

Por tudo isso, a obesidade e o sobrepeso devem ser pensados como problemas de saúde pública e como tal devem ser tratados desde a sua prevenção. Sendo assim, a comunidade médica e o poder público deveriam tratá-los de forma intensa e agressiva, assim como fizeram nas campanhas contra o tabagismo no Brasil.

As indústrias deveriam ser obrigadas a colocar em seus produtos alertas sobre o risco de obesidade, assim como existem avisos nos maços de cigarro. Outro fator – esse deveria ser uma obrigação tanto do poder público quanto da classe médica – é tentar estimular ao máximo possível a atividade física dessas crianças e adolescentes que estão acima do peso. Pode parecer exagero, mas ver uma criança comendo um salgadinho e tomando um refrigerante deveria causar tanto espanto quanto ver uma criança fumando.

Médico gastroenterologista, especialista em cirurgia bariátrica

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