Os Votos da Florida

Opinião / 01/10/2020 - 06h00

Márcio Coimbra*

Tradicionalmente Ohio é aquela parte do território dos Estados Unidos que nos indica o vencedor das eleições presidenciais. Isto se explica porque o estado do meio-oeste traduz em suas fronteiras as principais características do país. Nesta eleição, contudo, o campo de batalha mais importante tem se tornado a Flórida. Não somente pelas suas particularidades, mas como o local mais estratégico para vencer no âmbito nacional e onde o resultado é imprevisível no atual embate eleitoral. 

Ali, em todos os pleitos recentes a diferença entre republicanos e democratas varia em torno de 1%. Nas eleições de 2018, o atual governador Ron DeSantis, aliado de Trump, venceu o candidato democrata Andrew Gillum por 49,59% contra 49,19%. Naquele mesmo ano, o ex-governador republicano Rick Scott venceu o senador Bill Nelson, vencedor das três disputas anteriores, por 50.06% contra 49,93%. Os resultados ficaram em disputa por 12 dias seguindo a recomendação legal de recontagem quando a margem de vitória é menor de 0,5%.

Em 2016, Trump venceu no estado com 49,02% contra 47,82% de Hillary Clinton. Uma margem de apenas 1,2%. Em 2012, Obama venceu Mitt Romney por uma margem ainda menor: 50,01% contra 49,13%. No pleito estadual de 2014, o então governador Rick Scott venceu por uma diferença de apenas 1% contra o ex-governador Charlie Crist, que havia trocado de partido. A eleição anotou 48,1% para Scott e 47,1% for Crist. Como vemos, vencer na Florida não é tarefa fácil. Estados diante de um dos estados mais disputados da política americana.

Para entendermos a importância da Flórida, se Biden vencer no estado, Trump precisará realizar uma ginástica de vitórias para compensar a perda. O atual presidente teria que vencer no Arizona, Michigan e Carolina do Norte, estados que estão em disputa aberta, além de vencer em uma combinação de Minnesota e Wisconsin ou Pensilvânia, assim como New Hampshire e ainda levar os dois votos do Nebraska e Maine (que dividem os delegados proporcionalmente), mantendo Ohio e Iowa. Como vemos, seria muito mais simples conquistar os votos da Flórida.

Para vencer neste local estratégico, o foco está no voto latino, dividido em três comunidades: cubanos, porto-riquenhos e o somatório de outros imigrantes hispânicos. Trump voltou sua atenção para o nicho cubano, localizado na região de Miami-Dade (que foi crítico na eleição que levou Bush ao poder no ano 2000) e Biden mirou no eleitorado descendente de Porto Rico, localizado em Tampa e Kissimmee, em uma região mais central. Isto se explica porque o voto latino não é monolítico e tende a se dividir entre os dois partidos.

Tradicionalmente os institutos de pesquisa mostram os democratas sempre na dianteira, a ponto do senador Rick Scott apostar que Trump está na liderança em seu estado. Em suas campanhas, as pesquisas sempre mostraram uma defasagem de três a sete pontos em seus números, logo, se Trump aparece empatado com Biden nas sondagens, Scott diz que os republicanos têm tudo para entregar os 29 votos da Flórida no Colégio Eleitoral para Trump. Se isto acontecer, a reeleição será uma realidade. 

Logo, mais importante que Ohio neste ciclo eleitoral, o estado da Flórida ocupa lugar crítico nas contas dos estrategistas. Em todas as campanhas presidenciais que trabalhei nos Estados Unidos, Miami era destino certo, mas Pittsburgh, Grand Rapids, Milwaukee ou Cleveland eram certamente mais estratégicos. Neste ano, o jogo mudou e a Flórida certamente está encarregada de desequilibrar esta corrida eleitoral e praticamente definir quem ocupará a Casa Branca pelos próximos quatro anos.

*É coordenador da pós-graduação em Relações Institucionais e Governamentais ,cientista político e mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). 

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