Psicólogos também precisam de terapia

Opinião / 02/09/2020 - 09h34

Por Weslley Carneiro (*)

A interdependência entre os acontecimentos é um fenômeno investigado pelos experimentos científicos, como o Efeito Borboleta defendido por Edward Lorenz e que faz parte da teoria do caos. Assim também acontece com os fenômenos sociais, que apresentam uma inter-relação entre seres humanos e como tudo isso pode nos afetar. A pandemia impactou a todos, inclusive os psicólogos, mesmo com todo preparo e técnica.

A pandemia apresentou cenários que afetam a nossa rotina profissional e saúde mental. Estamos enfrentando problemas emocionais e, em alguns casos, focando muito em nosso desempenho no amparo aos pacientes, mas descuidando de nós mesmos. Prova disso é que o Conselho Federal de Psicologia (CFP) está fazendo uma pesquisa sobre as condições de trabalho da categoria durante esse período.

Mesmo sendo profissionais de saúde mental, enfrentamos dificuldades semelhantes às de qualquer outra pessoa, ainda que a nossa posição de acolher o sofrimento humano nos coloque sob uma avaliação errônea de que estamos imunes a ele. Vivenciamos as angústias dos pacientes, como inseguranças em relação ao futuro, suas finanças e à saúde, passando também por momentos de forte estresse. Estranho mesmo seria se expor a isso sem se sentir mobilizado emocionalmente.

Para diversos profissionais o volume de atendimentos aumentou e todas as mudanças e incertezas podem causar sérios danos à saúde mental, como o surgimento de episódios de pânico, de transtorno de ansiedade generalizada ou aumento nos casos de TEPT (Transtorno de Estresse pós Traumático). Um levantamento feito pelo Ministério da Saúde estima que até 50% da população exposta à epidemia pode vir a sofrer alguma manifestação psicopatológica.

Possibilitar maior equilíbrio emocional e acolher o sofrimento humano é gratificante para o psicoterapeuta, que tem a missão de acompanhar as pessoas na busca por mais qualidade de vida e clareza de propósitos, incluindo o atendimento de nossos colegas psicólogos. Contudo, a falta de cuidado consigo mesmo pode fazer com que o psicoterapeuta se envolva em uma sobrecarga nos atendimentos e demais dificuldades inerentes à profissão que precise buscar um suporte. Por isso, o ideal é manter-se atento às nossas ações, sentimentos e pensamentos, de maneira a desenvolvermos maior autoconsciência para percebermos com mais clareza o nosso mundo interno, proporcionando o maior autocuidado e mudanças de comportamento que possibilitem maior capacidade de encarar as diversidades.

Reconhecer nossa própria vulnerabilidade e identificar o momento certo para buscar ajuda não faz dele um profissional pior. Pelo contrário, isso pode ser o diferencial que, além de possibilitar maior coerência para a atuação profissional, irá lhe auxiliar a atravessar as dificuldades, mantendo a sua saúde mental e tornando-o mais apto emocionalmente para ajudar outras pessoas com o melhor de seu conhecimento técnico. Como diria a sabedoria popular, que pelo menos em nossa casa de ferreiro, o espeto não seja de pau.

(*) Psicólogo clínico e membro afiliado a Association for Contextual Behavioral Science (ACBS)

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