Quando ninguém se entende

Opinião / 06/04/2019 - 06h00
Aristoteles Atheniense*
 
O deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) protagonizou atritos no último mês que afetaram a relação do Congresso com o Executivo, cujas consequências tornam-se imprevisíveis. <TB>Em princípio, o episódio envolveu o ministro Sérgio Moro, autor do pacote anticrime, que, a seu ver, poderia tramitar no Legislativo juntamente com a reforma da Previdência.
 
Na semana passada, Moro cobrou de Rodrigo Maia celeridade no processamento de seu estudo, revelando negligência em relação à missão que, de comum acordo, ficara acertada. A resposta do presidente da Câmara implicou numa reprimenda ao ministro: “Eu sou o presidente da Câmara, ele é funcionário do presidente Bolsonaro. Então, o presidente é quem tem que dialogar comigo. Ele está confundindo as bolas. Ele não é presidente da República”. 
 
Num visível desmerecimento ao trabalho elaborado por Moro, Maia adiantou que a proposta encaminhada pelo ministro da Justiça não passa de uma cópia do projeto confeccionado pelo ministro Alexandre de Moraes, na época em que estava à frente daquela Pasta. 
 
O fato trouxe dissabor a Sérgio Moro que, num curto espaço de tempo de sua atuação, defrontou com denúncia de uso de candidatos-laranja no PSL, além de retirar a criminalização do Caixa 2, devido à resistência de parlamentares, vindo a desfazer a nomeação de uma especialista em Segurança Pública para o Conselho Nacional de Política Criminal, premido por um dos filhos de Bolsonaro.
 
Agora, Maia virou sua metralhadora contra Bolsonaro, anunciando que deixaria a coordenação da reforma da Previdência após o presidente haver dito em Santiago que há em nosso país quem não queira “largar a velha política”, numa implícita condenação ao próprio Rodrigo Maia, a seu pai César Maia e a Moreira Franco, padrasto da esposa do presidente da Câmara.
 
Segundo Bolsonaro, mesmo não citando nomes, teria recebido o governo em uma crise “ética, moral e econômica”, qualificando o Brasil como o “campeão da corrupção”.
 
Na avaliação do cientista político Sérgio Abranches, a falta de coalizão com o Legislativo traz dificuldades para a governabilidade. Assim, “não faz sentido o presidente da Câmara ser articulador político de qualquer agenda do governo”, mesmo que seja do interesse dele. “Quem tem de fazer articulação é o presidente e suas lideranças, e elas não estão dando demonstração de ter capacidade para essa articulação (...). Então, acredito que essa reforma está no limbo, à deriva” (“O Estado de S. Paulo”, 24/3/19).
 
(*)Advogado, conselheiro Nato da OAB e diretor do IAB.
 
 
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