Quando subtrair ajuda a somar

Opinião / 05/10/2019 - 06h00

Mauro Condé

“A síntese é uma virtude a ser perseguida”.

Acabo de voltar de uma viagem rumo ao conhecimento, usando como meio de transporte excelentes livros sobre a arte da Comunicação.

Eles me levaram para a Inglaterra de 1899, onde fui recebido pelo notável escritor John Ruskin, a quem fui logo pedindo:

Ensina-me algo que eu ainda não saiba e tenha o poder de mudar a minha vida para melhor.

Aprenda a escrever com maestria, para se comunicar com sucesso.

Escrever é cortar palavras.

E ele me ilustrou sua concisa lição com esta história deliciosa:

Naquela manhã, um homem chegou à feira e lá encontrou seu maior amigo, arrumando os peixes que vendia, num imenso tabuleiro de madeira.

Após se cumprimentarem, o feirante esticou um enorme quadro negro e nele escreveu, a giz, a seguinte mensagem:
“Hoje vendo peixe fresco”.

O feirante perguntou ao seu amigo se ele acrescentaria mais alguma coisa à frase.

O amigo, querendo ser agradável, elogiou a caligrafia e logo em seguida perguntou ao feirante:

- Você já notou que todo dia é sempre o dia de hoje? E acrescentou: Acho dispensável. Esta palavra está sobrando.

O feirante aceitou a ponderação e apagou o advérbio. O anúncio ficou mais enxuto:
“Vendo peixe fresco”.

- Já que você pediu minha opinião e, se me permite, tornou o visitante: Gostaria de saber se aqui na feira existe alguém que dá o peixe de graça.

Ao ouvir a negativa do feirante, sugeriu o corte do verbo.

O anúncio encurtou ainda mais:
“Peixe fresco”.

Empolgado, o amigo do feirante emendou outra pergunta:
- Por que apregoar que o peixe é fresco, se o motivo que traz um freguês a uma feira, no cais do porto, é a certeza de que todo peixe aqui é, certamente, fresco e não congelado?

Convencido, o feirante passou o apagador no adjetivo.

Ficou o anúncio, reduzido a uma singela palavra:
“Peixe”.

Mas, por pouco tempo. O amigo do feirante ainda ponderou que não deixaria de ser menosprezo à inteligência da clientela anunciar, em letras garrafais, que o produto ali exposto fosse peixe.
- Afinal, estaria na cara. Até mesmo um cego perceberia, pelo cheiro, que o produto ali vendido seria um pescado.

Foi a vez de o substantivo ser apagado.

O anúncio sumiu e o quadro negro também.

O feirante vendeu tudo. Não sobrou nem a sardinha do gato.

Naquele dia, ele aprendeu uma poderosa lição:

Escrever é a arte de cortar palavras.

Palestrante, consultor e fundador do Blog do Maluco

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