Revalidação de diplomas: um gargalo que precisa ser solucionado

Opinião / 04/04/2019 - 06h00
João Marques da Fonseca*
 
Diferentemente do que muitos imaginam, a revalidação de diplomas no Brasil não tem sido uma tarefa árdua apenas para quem atua no setor da saúde, como os médicos. Pelo contrário, esta tem sido uma missão, muitas vezes insana, para profissionais brasileiros e estrangeiros que atuam também em outras áreas, sejam engenheiros, físicos, químicos, entre outros. Mesmo com certificações de diversos graus de formação (tecnólogos, pós-graduado, doutores, mestres, pós-Doutores e PhD), estes especialistas passam pela mesma frustração de não conseguirem ter a sua formação reconhecida em nosso país.
 
Nos últimos anos, milhares de brasileiros foram aprimorar os seus conhecimentos em universidades internacionais. Inclusive, grande parcela destes estudantes são funcionários públicos ou conquistaram bolsas de estudos para tal ação. O que isso quer dizer? O investimento para estes estudos foi realizado, muitas vezes, com o dinheiro do Estado. Só que o aprendizado obtido por estas pessoas, em sua maioria, não poderá ser aplicado e aproveitado no Brasil, já que estes profissionais não conseguem a revalidação de seus diplomas.
 
Você pode estar se perguntando, mas qual a relevância deste tema para o país? Sem dúvida, é um assunto de extrema importância. Já que essas pessoas, altamente qualificadas, poderiam estar auxiliando o desenvolvimento econômico do Brasil, agregando o conhecimento trazido de fora em nosso mercado de trabalho, bem como contribuindo imensamente com o mundo acadêmico (que está extremamente fechado e atrasado). O que seria um grande avanço para toda a nação.
 
Neste quesito, somos atrasados, pelo menos, meio século em relação aos demais países. Se pararmos para analisar, o Brasil recebeu cerca de 300 mil pessoas de alta qualificação nos últimos 30 anos, com graduação, pós-graduação, doutorado, mestrado etc., desde as privatizações das telecomunicações, por exemplo, além dos investimentos empresariais produtivos. Entretanto, nem 1% destas pessoas tiveram seus diplomas e certificados reconhecidos por aqui, o que torna o Brasil nada competitivo, quando o assunto é atrair (e reter) ‘cérebros’.
 
Se fizermos um comparativo com o Canadá e a Austrália, estes 300 mil profissionais correspondem a, no máximo, três anos de imigração laboral canadense ou australiana, onde o reconhecimento e inclusão destes cérebros é de interesse da nação e não visa proteção Cartorial Acadêmica. Agora, pergunto: Será que eles estão errados e nós certos? Acredito que não. Já que não precisamos de muitas pesquisas para vermos que os percentuais de desenvolvimento de cada um desses países são imensamente superiores ao do Brasil.
 
Com a falta clara de inovação, intercâmbio, retenção e não reconhecimento destes cérebros nacionais e estrangeiros e com a criação de milhares de novos cursos e Universidades nos últimos anos, qual é a qualidade técnica de ensino que está sendo aplicada aos nossos filhos e netos? A não correção dessas práticas nocivas ao nosso desenvolvimento, nos coloca em atraso e desvantagem intelectual, obrigando-nos a cada vez mais garantir a reserva de mercado por falta de oportunidades inovadoras.
 
Portanto, precisamos atrair pessoas capacitadas para o trabalho no Brasil (atendendo ao interesse nacional); facilitar a migração e o retorno de brasileiros mediante a desburocratização da revalidação dos diplomas. Desta forma, conseguiremos mesclar conhecimentos, culturas, aprimorar mercados/setores que carecem de pessoas capacitadas. Será que mais vidas deverão ser ceifadas por intermédio de falha humana para que o Brasil reconheça a real carência de profissionais, nacionais e estrangeiros, de alta qualificação acadêmica?
 
*Presidente da EMDOC, consultoria especializada em mobilidade global e cCoautor de oito livros sobre migração. É idealizador do PARR (Programa de Apoio para a Recolocação dos Refugiados)
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