Selva de pedras

Opinião / 25/05/2016 - 06h00

Walber Gonçalves de Souza (*)

O planeta sofre transformações constantes, algumas delas de forma natural e tantas outras são provenientes da ação humana. No decorrer dos anos vamos deixando a nossa marca estampada na realidade que nos cerca. Possibilitando portanto uma forma de conhecer o próprio ser humano, pois o seu entorno acaba revelando um pouco de quem ele é.

Digamos que ao visitar uma família você depara com o seguinte cenário: um quintal com vários cachorros; um oratório com a imagem de Nossa Senhora Aparecida e uma camisa do Cruzeiro, emoldurada e afixada em um lugar de destaque. Mesmo que ninguém da família diga nada, ao observamos o ambiente poderemos chegar a algumas conclusões: naquela casa há alguém (ou todos) que gosta de cachorro, é católico e cruzeirense. Senão ela não seria daquele jeito, imagine se teria um quadro da camisa do Cruzeiro na parede da sala, em destaque, em uma casa de atleticanos apaixonados. 

Num outro cenário, nas férias de julho, você resolve visitar uma família de amigos do interior. Chegando à cidade de destino, passam por uma banca de revistas para comprarem um jornal. Ao começa a ler, a capa traz como manchete principal: “Neste ano já são 2.367 casos de homicídio”. Pela reportagem, mesmo não morando na cidade, podemos concluir que é uma cidade violenta, que enfrenta, com certeza, sérios problemas de aspectos sociais. 

Dito isto, reflitamos um pouco sobre as nossas cidades. Andando pelas ruas, independentemente se faz parte de bairros ou região mais central, a cada dia que passa a paisagem está ganhando um visual diferente. As nossas casas, aos poucos, estão se transformando em uma fortaleza. Há grade para todos os lados. Em alguns casos a cena chega a ser cômica para não dizer trágica. 

A casa é rodeada por um muro, que por si só deveria ser um limitador; entretanto observamos sobre o muro a existência de uma cerca elétrica e quando olhamos pelos vãos da grade deparamos com as janelas repletas de ferros contorcidos na tentativa de enfeitar a triste realidade, que é a transformação dos nossos lares em pequenas prisões de nós mesmos. Se o ambiente diz o que somos, quais seriam as características de um povo cujas residências estão repletas de grades? 

Ao fazermos uma leitura da paisagem das nossas cidades parece que o pensamento do filósofo Tomas Hobbes é uma realidade. Ele dizia que “o homem é o lobo do próprio homem”. E nesta selva de pedra e grades em que as nossas cidades estão se transformando, podemos concluir que estamos fugindo e escondendo da nossa própria espécie. Estamos com medo de nós mesmos.

Da mesma forma que a febre é uma sinal para o corpo de que há alguma coisa de errado em funcionamento no nosso organismo, as grades são os sintomas de uma sociedade doente. Que algo precisa ser feito e com urgência. 

No dia em que você andar pelas ruas e encontrar casas livres de guaritas, cercas e grades, alegre-se pois neste dia estaremos deixando de ser o lobo de nós mesmos.

(*) Professor do Centro Univversitário de Caratinga

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