Vamos falar sobre incontinência urinária

Opinião / 13/03/2021 - 06h00

Renato Teixeira Mascarenhas*

Definida como a perda involuntária de urina, acomete 45% das mulheres e 15 % dos homens com mais de 40 anos, segundo estudo realizado no Brasil.

Apresenta-se de forma diversificada, desde perdas leves e esporádicas de urina até perdas iminentes e abundantes, trazendo a necessidade do uso de absorventes e até de fraldas. Muitas vezes relevada, seja por conformismo ou mesmo vergonha, pode causar impacto significativo na qualidade de vida do indivíduo, com repercussões na sua higiene e saúde.

Dermatites causadas pelo contato da urina com a pele são frequentes. Distúrbio do sono causado por idas constantes ao banheiro durante a noite favorecem o cansaço crônico, quedas em populações mais idosas e predispõe a doenças como hipertensão arterial, dentre outras.

É comum notar uma significativa redução na ingestão de líquidos em portadores de incontinência, sob o raciocínio equivocado de que produzir menos urina implica menor perda. A desidratação crônica poderá desencadear outras consequências para a saúde. Ansiedade, piora da autoestima, diminuição da atividade sexual e depressão são condições que poderão se instalar a partir de um quadro de incontinência.

Há, também, o impacto social. O afastamento de amigos e família pode ocorrer devido ao constrangimento de perda urinária em público ou a preocupação com o eventual odor de urina exalado pela roupa.
Idas e vindas a qualquer lugar ficam restritas aos locais que apresentam banheiros acessíveis no trajeto. 

Mais que um problema do indivíduo, trata-se de um problema de saúde pública. Provavelmente, milhões de reais são gastos por ano no Brasil por tudo que envolve a incontinência urinária, desde a aquisição de fraldas geriátricas e medicamentos, até a realização de eventuais cirurgias para o tratamento, fato que, em janeiro de 2020, o senado brasileiro realizou uma sessão especial para discussão sobre o tema.

Existem vários tipos de incontinência urinária, dependendo dos fatores causais, sendo mais frequentes a incontinência por esforço, a incontinência por urgência, além da incontinência mista.

Na incontinência por esforço, a perda urinária ocorre quando o indivíduo ri, tosse, espirra ou caminha. Nas mulheres, a causa está relacionada, principalmente, à fraqueza dos músculos pélvicos que sustentam a uretra e a bexiga; nos homens, por outro lado, tal condição é mais comumente relacionada a problemas relacionados à próstata.

Na incontinência por urgência, ocorre uma vontade súbita de urinar em decorrência de contrações inesperadas da bexiga. O principal fator causal é o envelhecimento, embora tal quadro possa ser notado eventualmente em indivíduos jovens saudáveis.

Finalmente, o tipo misto que engloba as características dos dois tipos de perda urinária anteriormente descritas.

Dentre os fatores de risco para o desenvolvimento da incontinência estão a idade, obesidade, tabagismo, ingestão excessiva de cafeína, diabetes, doenças neurológicas, dentre outros. 

No caso das mulheres, o número de gestações, tipo do parto e história de cirurgia do útero são relevantes. Nos homens, frequentemente, as doenças da próstata estão associadas a perda urinária.

O tratamento deverá ser orientado por um médico urologista com avaliação histórica do quadro, exame físico e, eventualmente, alguns poucos exames e testes a fim de se diagnosticar o tipo da incontinência, sua intensidade e fator causal. 

Mudanças de hábitos, fisioterapia, medicamentos e eventualmente cirurgias poderão ser indicadas, caso a caso. Com o tratamento adequado, a melhora e até a cura são observadas em mais de 80% dos casos.

Fica o conceito de que a perda urinária pode afetar (e muito) a qualidade de vida. Então, se você é portador de incontinência urinária ou conhece alguém que seja, a hora é de atitude!

No ano 1 d.C., Sêneca, filósofo romano, conselheiro de César, imperador de Roma, escreveu: “Não importa o quanto viveremos, mas a qualidade de vida que teremos”. 

*Urologista do Corpo Clínico do Biocor Instituto, Membro titular da sociedade brasileira de urologia

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