‘Vaza-jato’ e dilemas do jornalismo

Opinião / 12/03/2020 - 11h33

Adriana do Carmo*

A Justiça Federal negou, em fevereiro, denúncia contra o jornalista norte-americano Glenn Greenwald, por suposto envolvimento na invasão de celulares de autoridades, como o procurador Deltan Dallagnol e o então juiz Sérgio Moro. A decisão reaviva a discussão sobre o jornalista ter ou não cometido crimes, ao se utilizar de mensagens vazadas por um hacker para revelar, em reportagens no site The Intercept Brasil, indícios de parcialidade na Operação Lava Jato.

O juiz federal Ricardo Augusto Leite seguiu o veto do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, que em agosto de 2019, proibiu que o jornalista fosse investigado, evocando o direito do sigilo da fonte. Em sua sentença, no entanto, Leite afirmou ver indícios de conduta criminosa de Greenwald, que anunciou a intenção de acionar o STF em busca de uma decisão que evidencie sua inocência.

A batalha judicial remete a dilemas éticos que pautam debates sobre o Jornalismo, inclusive no ensino da profissão. De que forma a moral jornalística se conforma à utilização, para a apuração da notícia, de mecanismos eticamente condenáveis no senso comum? Até que ponto se justificam artifícios como omissão da identidade, infiltração, câmeras escondidas e informações vazadas, cada vez mais disponíveis em tempos de Big Data?

Diferentes teóricos apontam que o compromisso do jornalista é com o interesse público, e não com o sigilo. Eugênio Bucci, um dos mais conceituados, afirma: “Seu pacto de lealdade é com o cidadão, não com as autoridades preocupadas em guardar seus segredos. Uma vez na mão de um jornalista, a informação ingressa em outro campo: o campo público.” Por outro lado, as prerrogativas dos jornalistas, inerentes às funções de vigilância e fiscalização, não justificam uma ausência de limites, nem eliminam a responsabilidade ética e moral com a credibilidade de suas fontes. 

A questão é abrangente, a começar pela delimitação do que seria a ética do jornalismo. Como se fosse pautada por uma “moral líquida” – fluida e capaz de adquirir diferentes formas e estados -, no cotidiano da profissão, ela é relativizada para atender às especificidades de cada apuração. Para legitimar suas práticas, jornalistas invocam o “deus interesse público”, conceito que, por sua imprecisão, abre frestas perigosas. 

Fica evidente que a complexidade do tema não cabe na norma cristalizada de um simples Código de Ética Profissional. Ela demanda um debate amplo, que dialogue dentro e fora do campo jornalístico, bem como olhares singulares, que avaliem as circunstâncias. 

Até que ponto vai a liberdade de imprensa no cumprimento dos deveres de garantir o direito à informação, fiscalizar e defender a democracia? Se a resposta não é única, nem definitiva, a pergunta deve ser permanente na agenda do debate sobre a profissão. 

*Jornalista, mestre em Comunicação Social e professora de Jornalismo na Faculdade Promove e na PUC Minas.

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