A filosofia de Ceni e o elenco do Cruzeiro

Cadu Doné / 14/08/2019 - 07h00

A filosofia de Rogério Ceni é bem diferente da de Mano Menezes. O novo treinador do Cruzeiro gosta de um time mais agressivo, que joga com as linhas mais avançadas. Propor, controlar, ter a posse, se impor: eis alguns vocábulos/expressões importantíssimos no universo de Ceni.

Com Mano Menezes, Robinho atuou quase sempre saindo da direita para dentro. Fico curioso para saber como este jogador passará a ser utilizado a partir de agora. A figura do meio-campista que trabalha de área a área, de forma dinâmica, viva, ditando o ritmo, me parece indispensável para Ceni implantar o estilo a ele associado. A priori, levando-se em conta o jeito com o qual a Raposa andava se apresentando, a escalação que costumava prevalecer, fica difícil achar essa peça entre os que vinham sendo titulares com regularidade. Talvez Jadson e Robinho sejam transformados, em um grau razoável, nestes personagens. Permanece a dúvida, no caso de ambos, no que se refere à capacidade, ao estilo físico: estariam aptos a executar um “vai e vem” típico de um meio-campista, digamos, mais completo? Teriam intensidade suficiente? Fato é que, inicialmente, tendo em mente as prioridades de Ceni, não dá para imaginar Robinho nem como um meia central tão descolado dos volantes, nem como um “ponta-armador”, como acontecia na gestão de Mano. Pelos flancos, soa mais provável que Ceni prefira armas de mais velocidade.

Justamente pelo apreço que possui pela compactação ofensiva, pela posse de bola, em teoria, cresce a chance de o Cruzeiro optar, com mais frequência, por um 4-3-3/4-1-4-1, com dois meio-campistas à frente de um só volante – abandonando um pouco o 4-2-3-1 que Mano usou na maior parte dos seus três anos, e o 4-4-2 com duas linhas de quatro que se tornou mais comum nos seus tempos derradeiros (em ambos, dois volantes permaneciam lado a lado, e muitas vezes o elo entre o meio e o ataque dependia da movimentação de Robinho, que saia da direita). O principal defeito tático do Cruzeiro nesta fraquíssima fase recente tem sido a ausência de mecanismos para ligar o meio ao ataque, e se mostrava até complicado mensurar o quanto esta lacuna se materializava pelo estilo, por limitações/erros do técnico, e a parcela de “culpa” da inexistência de meio-campistas natos, nos moldes que descrevi, no elenco. Melhor dizer simplesmente que as duas coisas caminhavam juntas.

Se a ausência de atletas mais dinâmicos para fazer o elo entre meio e ataque parece obstáculo para Ceni implantar sua filosofia, o novo treinador pode ser uma boa notícia para Fred e Sassá, centroavantes celestes. Os times de Ceni, por atacarem com mais gente, povoarem mais a área inimiga, costumam facilitar a vida dos homens de referência. Caras técnicos e lentos como Fred precisam, antes de mais nada, de compactação, opções para associações em passes curtos, tabelas, triangulações. Como o escrete de Mano, sobretudo recentemente, atacava com poucos jogadores, esses homens de frente costumavam receber a bola muito sozinhos, dependendo mais de escapadas individuais, em velocidade, nas quais precisariam atacar o espaço com a bola dominada – algo que, convenhamos, Fred não é mais capaz de fazer a essa altura de sua carreira. Ademais, com mais gente na área adversária naturalmente a marcação dos zagueiros é dividida, e a possibilidade de uma bola sobrar para a conclusão de um camisa 9 – num “bate e rebate”, num passe curto em que a liberdade para o centroavante surgiu porque a marcação foi atraída para outro alvo, ou mesmo numa bola aérea simplesmente por as atenções inimigas estarem menos direcionadas –, cresce bastante. 

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