Chega à BH músico mais relacionado ao futebol

Cadu Doné / 07/11/2018 - 08h00

Noel Gallagher sempre tratou o futebol como um dos parâmetros para sua felicidade. Numa das mais icônicas declarações daquele que é, talvez, o melhor entrevistado do mundo, ouvimos: “(...) Você me perguntou se eu estou feliz? Escute: eu tenho oitenta milhões de libras no banco. Eu tenho um Rolls Royce. Eu tenho três ‘stalkers’. Estou prestes a entrar para a diretoria do Manchester City. Sou parte da melhor banda do mundo. Estou feliz com isso? Não, não estou! Eu quero mais”. A fala, proferida em 1997, é dos mais precisos registros da era de ouro do Oasis, do Brtipop, da Cool Britannia; da retomada de certo orgulho inglês, da consolidação de um contraponto à dominação cultural americana; e se o Grunge dos Yankees carregava aura um tanto depressiva, o Oasis, com sua retórica “Working Class” celebrava um hedonismo grandiloquente. O futebol era parte fundamental disso.

Já na Argentina para a perna sul-americana de sua atual turnê, que chega à BH no próximo sábado, no último 31 de Outubro, em papo com a “Rolling Stone” dos Hermanos, o Gallagher mais talentoso cravou – ao fazer um balanço da vida quando se aproxima de completar 10 anos fora do Oasis: “Dez anos depois, ainda estou em turnê, me sinto mais jovem, mais bonito, tenho uma banda melhor e escrevo canções superiores”. Logo em seguida, ele completou: “Estou mais feliz e o Manchester City ganhou a Premier League três vezes – o que mais poderia querer?”. 21 anos depois, já num cenário completamente distinto do vivido por Gallagher na sua áurea década de 1990, ao falar de felicidade, o Manchester City segue lá, intacto. Não é à toa que dizem – e aqui me lembro do filme “O Segredo dos seus Olhos”: uma pessoa pode trocar de família, de cônjuge... Nunca de time.

Não há nenhuma banda na história tão relacionada com o futebol como o Oasis. Não há coluna suficiente para mostrar todos estes vínculos. Os que mais me encantam são, sobretudo, os intangíveis, aqueles que desnudam a grandeza, o peculiar sentimento que esses caras de Burnage conseguiram despertar numa fatia enorme da população. Este ano, quando estive na loja oficial do Manchester City, havia apenas dois tipos de camisas retrô: uma deles fazia alusão àquele fardamento cujo patrocínio era da “Brother”, que Noel e Liam famosamente envergaram num ensaio para a NME. Advinha qual uniforme mais vi pela cidade e no jogo dos Citizens contra o Chelsea, ao qual fui em março? Por que uma camisa de uma época completamente nula do time – não ganharam nada a vestindo, nenhum ídolo especial a utilizou em campo – está tão impregnada no imaginário? Por causa do Oasis. Em função de míseras, antigas fotos.

Na Copa do Mundo deste ano, Fort Knox, canção do último álbum de Noel, era trilha sonora para edificar a tensão entre o fim do tempo normal e o início da prorrogação – a faixa vai abrir o concerto do inglês em BH. Meu momento inesquecível do Mundial, todavia, se deu ao som de outro hino escrito por Gallagher. Estava no estádio na eliminação da Inglaterra para a Croácia. O duelo já tinha acabado há muitos minutos. Somente os ingleses mais fanáticos seguiam dentro da arena em Moscou. O sistema de som tocou “Don’t Look Back in Anger”. Todos, eu digo TODOS os britânicos foram da frustração à comoção num estalar de dedos. O jeito de cantar, as expressões nos rostos daquelas pessoas ávidas pelo futebol... Nenhuma banda britânica, depois dos Beatles, foi um fenômeno cultural tão profundo e multifacetado como o Oasis. Nenhuma se relacionou tanto com as arquibancadas.

Noel disse, certa vez, que uma grande banda é capaz de mudar até o jeito de as pessoas se vestirem. O Oasis fez isso, mas não somente; o Oasis vestiu os estádios da Inglaterra – em grande medida, até da Europa – nas últimas décadas. Ou vocês acham que a proliferação de jaquetas Pretty Green e Stone Island vista em toda tomada que as câmeras fazem das arquibancadas em jogos no Velho Continente é acaso?

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