Teorias da conspiração

Cadu Doné / 09/10/2019 - 06h00

Ganhou ressonância nas últimas semanas o discurso de que a arbitragem brasileira – ao menos parte dela – agiria, de forma deliberada, a favor de algumas equipes. De que o campeonato, por esta razão, carregaria manchas. A entrevista de Maurício Galiotte após o empate do Palmeiras com o Inter foi o estopim, o motor para que este tipo de suposição – que vira e mexe pipoca no senso comum – retornasse de modo mais veemente à pauta.

Um dos argumentos utilizados por quem gosta de endossar, ainda que não taxativamente, as teorias conspiratórias, vai na seguinte linha: “o país é repleto de corrupção em todas as áreas; por que no futebol seria diferente? Por qual motivo um esporte que gera tanto dinheiro, que se entrelaça tão profundamente ao poder político, ficaria incólume, se posicionaria numa espécie de redoma moral”? Percebe-se, no jeito com o qual proposições desta natureza costumam ser utilizadas, um tipo de sofisma.

Não apenas o futebol não se aproxima de qualquer pedestal ético, como, especificamente, trata-se de um meio até mais propício do que a maioria dos outros para desvios de conduta dos homens de colarinho branco. O “modelo de negócio” dos clubes, a fluência de comissões, a paixão idiotizante que serve como incentivo para comportamentos toscos, intempestivos, estritamente passionais... São muitas as facetas que tornam o ambiente da modalidade em tela muitas vezes convidativo para corruptos. Mas recorrer a ilações fundamentando simplesmente que determinado campo não há de se posicionar à parte da sociedade, não merece receber uma espécie de salvo conduto generalista, é uma falha argumentativa. Não é por que um setor não deve estar a priori livre de críticas que aspectos específicos dele necessariamente farão jus a acusações vazias que abarcariam, se enquadrariam, em teoria, no rol, na seara daquele universo que, em primeiro lugar, não foi colocado além do bem e do mal.

Vendo o campeonato como um todo, uma quantidade grande de jogos, rodada após rodada, há qualquer centelha concreta, palpável; qualquer substância ínfima para se desconfiar que existe esquema para algum time ser beneficiado? Não. Não há. Os jogos, a prática, no Brasileirão atual, não nos fornecem nada que poderia ser apontado como indício de benevolência ao Flamengo – para ficar no caso específico das mencionadas elucubrações de alguns palmeirenses. Nada próximo disso. Na verdade, nem que o rubro-negro, ainda que casualmente, tenha sido mais beneficiado do que prejudicado pelos donos do apito dá para dizer.

No meio disso tudo, boa parte da mídia precisa fazer um mea-culpa. Na forma de repercutir choradeira de dirigentes populistas que já pregam aos convertidos, sem qualquer pudor de parecer ridículo – o futebol não só permite como frequentemente cobra, conclama posturas desta estirpe –, caricatos na parcialidade, cria-se às vezes um panorama propício justamente para banalizar todas as reclamações, ainda que algumas venham a ter, num futuro, algum embasamento. Aumenta a chance de tudo cair na vala comum. Se todo mundo defende o seu até atacando sem provas, num modus operandi passivo-agressivo, sem qualquer compromisso com a qualidade do que será dito, contribui-se para que o debate público fique mais confuso, se contamine, pareça uma maximização de um fórum extremista do 4chan, de discussões simplórias/clubísticas de bar onde não há qualquer compromisso a não ser o simples vencer a discussão no grito. Habitualmente, os dirigentes de clubes no Brasil são assim – mas muita gente da imprensa não coloca seus arroubos retóricos no devido lugar, normalizando o que não deveria ser naturalizado.

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