Akinfeev: o goleiro 'patinho feio' que nada no lago dos 'cisnes' soviéticos

Direto da Rússia / 09/07/2018 - 06h00

MOSCOU – A vendedora de cosméticos Anna Naumov trocou o uniforme de trabalho pela camisa da seleção russa. Mal a porta do metrô abre e ela se despede correndo a caminho da Fan Fest de Moscou. É dia de orgulho na Rússia. Mesmo eliminada, a seleção sede da Copa do Mundo fez uma campanha de agrado à população. E um vilão virou herói, com o frango de 2014 sendo substituído pelos pênaltis defendidos de 2018.

A Rússia não tinha muito a oferecer na Copa e fez mais do que dela se esperava, ao alcançar as quartas de final e quase chegar às semifinais. Assim foi com Igor Akinfeev, que por pouco não colocou o país entre os quatro melhores do mundo - aquela bola do Modric! O veterano goleiro é um patinho feio num país de lendas como Lev Yashin e Rinat Dasaev. Mas, mesmo sem as glórias dos companheiros de seleção, nada no mesmo lago dos cisnes de luvas.

Akinfeev tem, numa forma paradoxal, o “clean sheet” como marca na carreira. A gíria importada da Inglaterra - se refere ao número de jogos que um goleiro passa sem sofrer gol - fez o arqueiro de 33 anos entrar no famoso “Clube do Yashi”. Uma reunião abstrata dos goleiros soviéticos que somaram mais de 100 partidas sem serem vazados.

Leva o nome do Aranha Negra por ter sido o pioneiro na estatística. E Igor é o líder, acima de Lev e Rinat. O goleiro do CSKA desbancou os ídolos do Dínamo e do Spartak com 245 jogos “limpos”, contra 229 de Dasaev e 203 do Aranha. Ainda faltam algumas partidas para Akinfeev superar Yashin nos “clean sheets” do Campeonato Russo. São 154 partidas contra 160 do guarda-redes da CCCP.

Ficar jogos sem levar gols colocou Akinfeev no topo dos rankings frios das estatísticas. Os corações igualmente gelados dos russos demoraram a digerir o goleiro que falhou na Copa de 2014. Mas teve um gesto de liderança em 2016, quando a Rússia foi varrida da Eurocopa e ninguém queria assumir a braçadeira de capitão na derrota de 3 a 0 para o País de Gales. Ela foi parar no braço do camisa 35.

Akinfeev jamais será Yashin, nem mesmo Dasaev. Porém, estará marcado numa Copa que limpou a imagem de outro patinho feio que já defendeu os “três palos”. O técnico Stanislav Cherchesov, mau quisto pela imprensa e torcida russas, brigado com jogadores, foi um goleiro mediado no fim da URSS. Foi ele quem, inclusive, levou o gol de Roger Milla que transformou o camaronês no jogador mais velho a balançar as redes da Copa. Em 1994, na única partida em que defendeu a União Soviética em Mundiais, o bigodudo e carrancudo treinador viu Oleg Salenko marcar cinco gols, outro recorde.

Marcas, entretanto, construídas em poucos minutos. Nada comparado aos 29 anos de CSKA que Akinfeev carrega nas mãos. Chegou ao clube do exército aos quatro anos, bem quando Yashin preparava os últimos suspiros na terra. Quem sabe, no país das estátuas, o filho ilustre de Vidnoye não tem aquela perna esquerda concretada?

Igor Akinfeev - mais 'clean sheets' do que Yashin e Dasaev

Igor Akinfeev - mais 'clean sheets' do que Yashin e Dasaev

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