A triste rotina dos atropelamentos

Editorial / 14/01/2020 - 06h00

Mais um atropelamento que acaba em morte em Belo Horizonte, e o cenário se repete: motorista abandona o carro (um SUV de luxo) no local sem prestar socorro à vítima. A justificativa habitual é o estado de choque, ou o medo da reação de populares. Na prática, o que se vê é uma forma de evitar o flagrante e ganhar tempo na busca de uma estratégia jurídica capaz de escapar de penas mais graves.

Apenas na capital mineira (e considerando o período entre janeiro e novembro do ano passado), houve 36 vítimas fatais. E nem sempre é o caso de isentar o pedestre que, muitas vezes, ignora faixas e passarelas em nome de um pretenso ganho de tempo, aumentando exponencialmente o risco de se tornar parte da triste estatística.

Se a velocidade e a imprudência (sob a forma de desrespeito à sinalização) são, historicamente, associadas a esse tipo de acidente, não há como ignorar a perigosa mistura entre álcool e direção. Agora mais vigiada graças a uma lei que se tornou referência internacional por parte da ONU. Mas que, infelizmente, ainda explica boa parte das ocorrências de atropelamentos. 

Há ainda um lado perverso da evolução tecnológica das últimas décadas. Por mais que haja apelos, punições previstas, campanhas de conscientização em todo o mundo e dispositivos nos veículos, fala-se ao celular como nunca ao volante. O aparelho, assim como os sistemas multimídia, cada vez mais populares sobre rodas, provocam uma distração extra que pode ser suficiente para tirar uma vida, ou provocar sequelas graves.

Ao que muitos proprietários reagem não com uma postura solidária, mas com o emprego de películas ainda mais escuras do que o permitido nos vidros, dificultando a identificação da irregularidade.

Há aí um caso típico de impossibilidade de ação das forças públicas além do que já é feito. Não se tem como prever locais e momentos das ocorrências, tampouco fiscalizar 100% dos condutores todo o tempo. No máximo, aumentar a vigilância nos locais mais recorrentes, o que, ainda assim, não é garantia de maior segurança a pedestres e ciclistas, vítimas mais comuns.
Identificar, punir e deixar claro que não há impunidade ainda são a melhor estratégia para reduzir números tão tristes a curto e médio prazo.

 

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