Cotas pagam parte de dívida histórica

Editorial / 25/03/2017 - 06h17

A escravidão é bastante recente no Brasil, em termos históricos. Embora tenham se passado 128 anos desde a abolição, nossa sociedade ainda tem as marcas bastante visíveis de uma das práticas mais absurdas e violentas da humanidade. O desrespeito aos negros não acabou na canetada da Princesa Isabel, persistiu em forma de preconceito, que foi passando de geração em geração. Os danos de anos de exploração são irrecuperáveis. 

O leitor mais experiente que fizer uma exercício de recordação vai certamente se lembrar de como eram comuns piadas e ironias sobre a capacidade intelectual do negro e de como eles eram tratados ainda como pessoas de segunda classe, assim como no final do século XIX. 

Mas a história da nossa existência conta que toda a sociedade evolui – umas mais lentas que as outras – e hoje temos o pensamento mais plural, mais condizente com as características de nossa nação. Mas em muitos casos, são necessárias ações mais efetivas para apressar a correção de erros que cometemos no passado.

A política de cotas nas universidades é uma dessas ações que busca minimizar uma desigualdade presente em nossa sociedade, que foi criada às custas de muitas vidas. Ela nunca será uma política de igualdade e, sim, uma compensação pela desigualdade de oportunidades. Os números de ocupações de cadeiras nas universidades que apresentamos nesta edição mostram como essa política é necessária. 

Se isso não for suficiente para convencer quem é contra as cotas, basta ler os testemunhos de pessoas que estão prontas para entrar no mercado de trabalho depois de cursarem uma universidade, onde só conseguiram entrar pela reserva de vagas. 

Relatos de docentes também mostram que esses mesmos estudantes possuem médias iguais ou bem melhores que os de não-cotistas, o que faz cair por terra a ideia de que não dariam “conta do recado”. 

O que essa parcela da população precisa é de uma chance, de uma porta aberta para um caminho, abertura que não virar em uma sociedade que ainda tem o racismo bem presente. 

Quanto todos forem iguais e tiverem as mesmas oportunidades, podemos pensar em nos livrar das cotas. Antes disso, elas apenas pagam os juros de uma conta que ainda estamos devendo, e muito. 

 

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