Mais um grito por liberdade

Editorial / 25/07/2015 - 07h43
O jornal Hoje em Dia foi vítima, durante esta semana, de uma mal articulada tentativa de intimidação e censura por parte de um órgão da administração estadual. A Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), por meio de sua assessoria de imprensa, passou por cima de todos os preceitos éticos e democráticos que forjaram o jornalismo pós-ditadura e expôs, para toda a mídia nacional e em suas redes sociais, uma demanda específica e exclusiva do jornal, sobre temas relativos à gestão da pasta e eventuais problemas no relacionamento entre as polícias Civil e Militar.
 
No questionamento enviado à Seds, a reportagem do Hoje em Dia buscava apenas confirmar denúncias de que problemas de estrutura nas delegacias e batalhões do Estado estariam afetando negativamente o trabalho das polícias. Também perguntamos sobre movimentos internos nas corporações e projetos de lei que tramitam na Assembleia Legislativa para otimizar o registro de ocorrências. Além disso, questionamos sobre novos rumores, que partiram de fontes da cúpula das polícias, de que o secretário poderia deixar o cargo. 
 
Em lugar de uma resposta às perguntas que foram feitas pela nossa reportagem, fomos surpreendidos com a exposição pública da pauta, em uma clara agressão ao jornal, à repórter que apurava o assunto e ao direito constitucional que todo cidadão tem de questionar o poder Executivo sobre aspectos que são de evidente interesse público. Na tentativa de exercer a tão conclamada “liberdade de imprensa”, fomos agredidos e desrespeitados de forma atabalhoada e antiética.
 
Não há nada de surpreendente ou absurdo nas demandas feitas pelo HD. Os próprios fatos que recheiam o noticiário dos jornais do Estado comprovam que há, sim, problemas graves envolvendo a segurança pública em Minas Gerais. Problemas que não começaram com o governo de Fernando Pimentel, mas que permanecem sem solução. São questões que tiram o sono do trabalhador comum, que precisa sair cedo e voltar tarde para casa e o faz sem a sensação de segurança que deveria existir em um estado democrático de direito. 
 
Insatisfações e atritos internos no governo do Estado em relação à gestão da Defesa Social são frequentemente relatados a nossos repórteres por fontes de dentro do próprio governo. Sempre em sigilo, porque em todos os escalões há um temor generalizado de retaliações. A reação desproporcional à apuração do Hoje em Dia sugere que os temores se justificam.
 
Ao tentar desmoralizar um jornal e uma repórter, a Secretaria de Defesa Social deixa a preocupante impressão de ingerência e violação de direitos conquistados a duras penas pelos veículos de comunicação. É o mesmo Estado que deveria se esmerar na tarefa de garantir o respeito pleno às liberdades civis, aos direitos humanos e garantias fundamentais. É a mesma democracia que deveria garantir a um veículo de imprensa o direito de apurar uma informação e ser responsável pelo uso que fizer dela.
 
Com essa atitude, a Secretaria de Defesa Social espera estar decretando o fim da exclusividade e originalidade das pautas dos jornais? Todas as demandas feitas por todos os veículos de imprensa serão contestadas publicamente, ao invés de serem respondidas? Todos os temas que forem constrangedores para a Seds serão tratados com desrespeito e truculência?
 
Em busca de respostas, o Hoje em Dia fez ofícios à Associação Nacional de Jornais e ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais relatando o ocorrido e pedindo que as entidades de classe da categoria se manifestem sobre o ocorrido. A Subsecretaria de Comunicação do governo do Estado, que, embora sem sucesso, mostrou boa vontade para apurar e contornar o problema, também foi notificada.
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