A culpa é do porteiro

Eduardo Costa / 04/02/2013 - 06h13

O colega anuncia em coluna de jornal ter descoberto de quem é a culpa pelo caos no trânsito que nos estressa no dia a dia. É do porteiro do prédio dele, que comprou um carro. E afirma que um porteiro ganha “muito menos” de R$ 1 mil por mês. Está errado. O piso já é de R$ 805.

Mas, absolutamente desconectado da realidade dos mais humildes, acredita que a renda do profissional se resuma ao salário. Não sabe até hoje o colega que, neste país desigual e de indecente distribuição de renda, o porteiro noturno se vira de dia e dorme nas noites alternadas de batente.

Ignora que, nessas circunstâncias, a mulher também rala, possivelmente fazendo faxina, ganhando até R$ 80, R$ 90 por dia ou algo em torno de R$ 2 mil por mês.

Como não é dado a se preocupar com coisa de pobre, o colega não sabe que há anos se vende carro popular em até 72 meses, o que significa prestações perfeitamente compatíveis com a renda familiar. Mas o que realmente me chateia é a indiferença de boa parte dos que formam a opinião pública em relação ao modo de vida dos semelhantes, pessoas com as quais têm que conviver, ainda que não os vejam (afinal, existem pesquisas provando que muitos trabalhadores são invisíveis aos olhos de seus “iguais” e o porteiro de prédio é um deles).

Será que o colunista faz ideia do que é morar no bairro Santinho, em Neves, ou no Palmital, em Santa Luzia, e trabalhar na zona Sul, no prédio dos bacanas? Pode imaginar que o cidadão gasta mais tempo dentro do ônibus, espremido e humilhado, do que no convívio com a família?

Por não conhecer esse sofrimento – e não fazer pressão com seu instrumento de trabalho por mudanças –, o jornalista jamais saberá avaliar a importância de um carrinho velho para o trabalhador. Embora em contato no dia a dia, temos uma “cidade partida”, onde uns fazem questão de ignorar o sofrimento, as possibilidades e, principalmente, os sonhos dos outros.

O pior é que o colunista também ignora a ascensão das classes C e D, conquista histórica do povo brasileiro na última década. É assim: quando a classe média brasileira vai aos Estados Unidos, se encanta com o fato de que tratador de piscina ou garçonete usa carros aqui considerados de luxo, mas, entre nós, se o porteiro compra um bife de alcatra para o filho achamos um absurdo, ainda que nossas crianças só comam filé mignon.

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