Elza e a inovação

25/01/2022 às 19:54.
Atualizado em 26/01/2022 às 00:14

Léo Miranda*

No último dia 20 de janeiro de 2022 a música brasileira perdeu uma das grandes cantoras do último e desse século: Elza Soares, que estava com 91 anos. De acordo com a própria artista, em uma de suas últimas entrevistas, sua trajetória se mistura com a história brasileira, pois ela viveu momentos marcantes (e difíceis) como a própria ditadura militar, além de sentir o preconceito racial e de gênero nos diferentes contextos históricos os quais o país passou.

Assim como seu brilhantismo, a morte de Elza ultrapassou as fronteiras brasileiras, com notas de pesar e publicações em jornais de vários países. Mas uma delas me chamou muito a atenção por exaltar um dos aspectos que revelam o quanto a cantora carioca foi fascinante em tudo que fez. Em entrevista ao programa Estúdio CBN, o produtor musical João Marcelo Bôscoli (que inclusive é filho de Elis Regina), quando indagado pela âncora Tatiana Vasconcelos sobre o estágio recente da carreira de Elza, foi enfático: ela estava no auge de sua carreira aos 91 anos. Ele completou justificando o quanto a artista era inovadora e aberta a novas parcerias e estilos musicais, como por exemplo a parceira com o rapper belorizontino Flávio Renegado, o que a colocava distante de uma possível “velocidade de cruzeiro”, como muitos artistas já consagrados mantêm.

A generosidade e a abertura de Elza Soares para a inovação e descobertas conversam e muito com o que tem acontecido na educação brasileira. Novas tecnologias, metodologias e principalmente forma de interação com os alunos são uma realidade irreversível, impulsionadas pela pandemia. A questão toda é que assim como a pandemia nos arrebatou do dia para a noite, nos fazendo perder o rumo, a tecnologia parece fazer o mesmo. Mas também como na pandemia, a tecnologia parece estar sempre um passo à frente na sua incorporação no dia a dia da sala de aula. Soma-se a isso o abismo de infraestrutura e capacitação para o uso dessas tecnologias entre escolas públicas (maioria no país) e escolas privadas. A boa notícia é que a própria internet e as redes sociais têm possibilitado a busca por formas diversificadas de aprendizado, além da troca de experiências e metodologias entre professores e até mesmo entre estudantes.

Ao mesmo tempo, todas essas possibilidades disponíveis no mundo digital dependem daquilo que Elza Soares deixou de legado: a abertura e flexibilidade para o novo. Vídeos no TikTok, posts no Instagram têm sido utilizados para além da mera interação social. Mais do que “dancinhas” ou memes, as redes sociais incorporam um elemento que muitas vezes está ausente nas salas de aula, a proximidade com o contexto geracional. É claro que o bom senso é necessário, para evitar excessos, fake news e abusos. Mas de fato essas e outras novas formas de comunicação e interação vieram para ficar. A questão é se vamos ou não estar abertos a elas, assim como Elza Soares esteve aberta à inovação, parcerias e novas descobertas.

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