Entre a cegueira e o real

27/12/2021 às 22:10.
Atualizado em 29/12/2021 às 00:37

Léo Miranda

O escritor português José Saramago em uma de suas principais publicações, narra a história de uma epidemia de cegueira transmitida rapidamente entre a população de uma cidade. Com o avanço da infecção, o governo local passa a adotar medidas de contenção da doença, como fechamento de fronteiras, confinamento de pessoas e racionamento de alimentos. O cenário descrito pode parecer familiar ao contexto em que vivemos nesses quase dois anos de pandemia de Covid-19. A obra de Saramago foi lançada em 1995, mas parece mais atual do que nunca. Assim como na obra literária, a “cegueira” contemporânea é expressa na negação da ciência e dos fatos. No Brasil (e por que não, no mundo) ela parece ser a metáfora mais adequada para o momento e assim como no livro espalha-se com a mesma velocidade do agente infeccioso seja pelas redes de fake news ou mesmo pelo famoso grupo da família no Zap em que se fazer presente passou a ser sinônimo do compartilhamento inverdades (mesmo que de forma desavisada).

Saramago sem sombra de dúvidas se espantaria com a correlação entre a sua obra e os últimos fatos no Brasil. Na última semana, a liberação do uso da vacina da Pfizer em crianças de 5 a 11 anos pela Anvisa escancarou a caixa de pandora do ódio e da ignorância por parte da população, estimulada pelo governo federal. Dados da Câmara Técnica de Assessoramento em Imunização da Covid-19), ligada ao próprio governo federal revelam que desde o início da pandemia até dezembro de 2021, 301 crianças de 5 a 11 morreram em decorrência da pandemia. Diante das estatísticas e após a liberação da Anvisa, o ministro da saúde Marcelo Queiroga disse em entrevista que a vacina só deverá ser aplicada mediante a prescrição médica, além de um termo de consentimento assinado pelos pais, o que inexiste para outras doenças no Brasil. O ministro justificou a falta de celeridade na vacinação com a baixa letalidade na faixa etária em questão. Por outro lado, infectologistas e boa parte da comunidade médica indica o contrário, a vacinação para as crianças deveria ser prioridade (assim como em outros países), até porque já se sabe que mesmo não levando a criança a morte, a Covid-19 pode desencadear efeitos colaterais adversos, como a miocardite, uma inflamação do músculo cardíaco, o que foi revelado por um artigo publicado na revista médica The Lancet Child & Adolescent Health em agosto de 2020.

A vacinação também é crucial para o retorno totalmente presencial nas escolas em 2022. O ensino híbrido provou ser uma ferramenta útil em 2021, mas parece já esgarçada para o ano que se aproxima. Se para os estudantes mais velhos dividir os dias de aulas entre a escola e a tela do computador de casa significou a aceleração da perda do interesse pelo estudo, para crianças na faixa etária de 5 a 11 anos os efeitos parecem ser ainda mais graves. Dessa forma, a única ferramenta de combate à "cegueira" que se alastra parece estar ainda comprometida. Resta saber até quando.

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