Metas para algum dia

12/01/2022 às 20:08.
Atualizado em 18/01/2022 às 00:53

Léo Miranda

Todo início de ano um ritual se repete: o de traçar as metas para o ano que se inicia. Metas quase sempre pessoais, que nos ajudam a vislumbrar um futuro melhor do que o presente. Um emprego melhor, uma vida mais saudável, a viagem tão sonhada, ou mesmo o filho tão aguardado. Por outro lado, as metas coletivas em geral são esquecidas, principalmente no momento presente, em que a individualidade das relações tem se sobressaído em relação à alteridade.

No Brasil de 2022 (e muito provavelmente no de 2023 também) a meta coletiva de erradicar a miséria e principalmente a fome parece estar distante dos planos de ano novo, principalmente do governo federal, muito mais preocupado a partir desse ano com as eleições do que com o que de fato aflige o país. Com a inflação de dois dígitos e o poder de compra de consumo da população mais pobre corroído, a insegurança alimentar continuará a fazer parte da realidade dessa ampla parcela da população brasileira.

Ainda em 2021, para ser mais preciso, em 17 de novembro, foi iniciado o pagamento do Auxílio Brasil de R$400, que substituiu o Bolsa Família. O novo programa federal além de também ser afetado pela inflação alta, deixou de exigir que crianças estivessem matriculadas na escola para a realização do pagamento do benefício, como era feito no programa anterior, medida extremamente eficiente para garantir a frequência dos estudantes à escola. Feito às pressas e sem a robustez de um programa social de verdade, o novo programa de transferência de renda federal na realidade não pagará o valor prometido (devido à inflação elevada), como também desassociou a transferência de renda a contrapartidas das famílias.

O que pouca gente se lembra é que o “avô” do novo benefício federal surgiu por causa dos estudantes. Nos idos de 2001, ainda no governo Fernando Henrique Cardoso, o Bolsa-escola transferia renda para as famílias mais pobres como forma de mantê-las matriculadas e frequentando a escola.

Mesmo que não cumpra essa função social extremamente relevante, além da transferência de renda, o Auxílio Brasil é tão importante quanto seus antecessores: como diz o ditado popular “ruim com ele, pior sem ele”. Porém, sem a contrapartida escolar e diante do aumento do desemprego ampliado drasticamente pela pandemia, o que já se pode prever é um aumento da evasão escolar.

Com pais desempregados, ou não conseguindo garantir o sustento da família devido aos salários impactados pelas altas dos preços de bens e serviços, muitos jovens deixarão a escola, situação recorrente desde os primórdios da pandemia de Covid-19.  Esses mesmos jovens engrossam a geração “Nem-Nem”, a dos que não estudam e nem trabalham, já que pela falta da própria escolaridade e de experiência, perdem seus empregos precocemente.

Começamos o ano novo, então, com as mesmas velhas metas do ano velho, com a esperança de que elas se tornem concretas algum dia. Resta saber quem se engajará com sua realização.

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