O ataque zumbi: do ministério à sala de aula

24/11/2021 às 18:06.
Atualizado em 05/12/2021 às 06:19

Marcelo Batista

A série The Walking Dead conta a história de um pequeno grupo de sobreviventes em um mundo pós-apocalíptico cheio de mortos-vivos. Essa história pode não parecer, mas de alguma maneira lembra a vida do professor no fim do ano. Com a maior parte dos trabalhos executados, com quase todos os alunos aprovados ou com muitos dos vestibulares devidamente feitos pelos estudantes, o maior desafio do professor é apenas sobreviver. Mesmo assim, a maioria de nós parece muito mais um morto-vivo do que os personagens da própria série. Com pouquíssima energia, ainda conseguimos trabalhar, mas ao mesmo tempo, devido ao esgotamento não conseguimos fazer quase nada, a não ser esperar o ano acabar.

E olha que eu ainda dei um último suspiro no fim de semana. Neste domingo fui fazer o Enem, para conhecer o exame de perto e do outro lado das quatro linhas. Não que tivesse sido a minha primeira vez no exame: já havia feito a prova em 2013, mas pude confirmar muito das  impressões que tive naquela época. A prova é demasiadamente longa: as questões de linguagens, se lidas com calma, consomem muito tempo de prova; se lidas com pressa, induzem o aluno ao erro. A prova de humanas é excessivamente objetiva, numa tentativa de equilibrar a grande extensão da prova de linguagens e em alguns momentos exige um pouco de decoreba. No fim das contas, o aluno sai cansado e muitas vezes insatisfeito com o número de acertos. Eu mesmo não consegui fazer todas as questões de humanas, na verdade mal tive tempo de começar a prova. E se eu tivesse feito a prova para valer? Vai saber o resultado.

A grande verdade é que mais uma vez a prova do Enem deu muito mais pano para manga do que devia. No ano passado a discussão era sobre um possível (e depois confirmado) adiamento. Neste ano, uma possível influência para modificar as questões, para retirar o suposto caráter ideológico da prova. Com questões modificadas ou não, continua claro que a prova permanece injusta para grande parte dos estudantes.

Outra eterna polêmica é o tema da redação. Eu, como professor da área, gostei da proposta. Neste ano ela discutiu sobre a invisibilidade dos que não têm o registro civil e os possíveis impactos para a cidadania. Mesmo assim, o tema é tão pouco tratado com os alunos que muitos tiveram dificuldade para argumentar. Tudo bem que somente ser colocado como tema de redação já faz com que os alunos pensem na questão, mas o tema estar na prova é no mínimo irônico. Não sei se você já parou para pensar, mas dentre as várias exclusões dos que não têm registro civil está a própria prova do Enem, que exige a documentação na inscrição e no momento da prova. É uma exclusão metalinguística que o próprio ministro da educação acabou deixando passar. E para nós a reflexão: quem é o verdadeiro zumbi nessa história; Milton Ribeiro, que insiste em se manter firme no cargo, ou os professores, que são obrigados a se submeter a essa figura fúnebre e desajeitada.

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