O verdadeiro milagre natalino

22/12/2021 às 18:56.
Atualizado em 29/12/2021 às 00:36

Marcelo Batista

O filme o Auto da Compadecida, dirigido por Guel Arraes, estreou no cinema em 2000, com roteiro baseado em obra homônima de Ariano Suassuna. A história foi um sucesso de público e crítica e apresentava muito da cultura do nordeste do Brasil. Lembro que quando assisti ao filme pela primeira vez um dos aspectos que mais me impressionou foi a presença de um Jesus negro, algo que se repetiu também em obras hollywoodianos como Todo Poderoso, que trazia um Jesus também negro interpretado por Morgan Freeman. Entretanto, infelizmente a imagem de Cristo apresentada nas obras está muito distante do preconceito da vida real, em que muitas vezes esses indivíduos são tratados com marginalização.

A final da Copa do Brasil 2021 mostrou algumas situações problemáticas envolvendo o aspecto racial. No jogo de ida, no Mineirão, o rapper mineiro Djonga acertou um soco em um segurança do estádio, em reação ao que afirmou ser um ato de racismo sofrido.  Para piorar, no jogo de volta, na semana passada, as câmeras flagraram dois episódios de pessoas que, para provocarem a torcida rival, imitavam macacos, uma atitude deprimente.

E tudo isso ainda acontece mesmo com a obrigatoriedade do ensino de cultura africana nas escolas desde 2003, por meio da lei 10.639. Teoricamente, os estudantes deveriam terminar o Ensino Médio reconhecendo os principais elementos da cultura africana e com uma visão menos voltada para a história dos países mais desenvolvidos, que são vistos como modelo não só cultural, mas comportamental e também racial. Como reflexo dessa situação, várias situações terríveis ainda ocorrem entre estudantes, como na semana passada, aqui em Belo Horizonte, quando um aluno de uma escola particular, em conversa pelo WhatsApp divulgada pela mídia, afirmou que tinha “saudade de quando preto era só escravo".

Mas como o ambiente escolar pode desconstruir as práticas racistas se muitas vezes ela também é responsável por reproduzi-las? Tenho pouquíssimos colegas negros nos locais onde trabalho, assim como os alunos negros, nas escolas particulares, podem ser contados nos dedos. Mas se engana quem pensa que a visão racista se concentra somente nas instituições particulares. Nesta terça, na cidade de Santo André,  em São Paulo, um professor foi flagrado, em vídeos que circulam na internet, com a roupa do grupo extremista Ku Klux Klan, em clara exaltação ao racismo extremista. O profissional, que foi afastado pela instituição pública é, ironicamente, professor de história.

Infelizmente não é a primeira vez que discuto sobre a questão racial nesta coluna, mas como esses atos se repetem o assunto deve também ser tratado, ainda mais quando aparecem em um sistema educacional que ignora a lei de 2003 e até reproduz atos racistas. Resta torcer para que o espírito natalino, que exalta o nascimento de um Jesus branco ou a figura de um Papai Noel caucasiano, paradoxalmente faça com que as pessoas reflitam sobre a empatia e o respeito.

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