Break a leg, 'Arrascaneta'!

Evaldo Magalhães / 11/01/2019 - 07h00

A expressão inglesa que serve de título a esta crônica (“Quebre a perna!”) vem do teatro, como muitos sabem. A turma das artes cênicas sempre foi supersticiosa e, desde idos tempos, acreditava que desejar boa sorte a um colega, antes de uma estreia ou mesmo de uma apresentação corriqueira, poderia gerar efeito totalmente contrário.
 
Um simples “Good luck!”, por exemplo, corria o risco de transformar-se em mau agouro. Daí a preferência por dizer algo bem oposto ao companheiro ou companheira ao qual se estimava sucesso. 

No Brasil, o pessoal da área traduz esse voto de maneira igualmente contundente, mas um tanto escatológica: “Merda!”, dizem.

Faço tal introdução a propósito da conturbada saída do excelente Arrascaeta do Cabuloso, esta semana, depois de uma novela de poucos capítulos, mas que teve direito a ruidoso bate-boca, envolvendo empresários do jogador, comandantes do Flamengo e a diretoria celeste.

Foram acusações de condutas reprováveis daqui e dali e, em um dos episódios, houve até o sumiço do atleta da Toca II, onde não treinou uma vez sequer desde o retorno das férias. 

O epílogo do imbróglio, pelo que me contaram, teria se dado durante reunião em um requintado restaurante de Montevidéu, daqueles em que o prato mais simples equivale a todo o meu salário. 

Ao final, imagino que os caras soltaram gargalhadas, acenderam uns cubanos legítimos e celebraram o acordo com um brinde de Dom Pérignon. Normal. 

De qualquer forma, dirijo-me aqui ao talentoso uruguaio, do qual sentirei saudades, fazendo minhas as palavras dos colegas e amigos de atores, diretores e dramaturgos que, na véspera de uma performance, despedem-se deles com o tradicional “Break a leg!”.

Não nego, porém, que isso me lembra um dos casos pitorescos do Tio Zezé, um dos irmãos preferidos de minha mãe e que nos deixou há alguns anos. 

Torcedor fanático do Galo, Tio Zezé, pai do grande fotógrafo Paulo Fonseca – a quem envio saudações – ficou irritadíssimo quando, na segunda metade dos anos 70, o ex-volante alvinegro Toninho Cerezo teve sua primeira convocação para a Seleção Brasileira. 

Numa época em que, mais do que hoje, cobrava-se identificação e dedicação total dos jogadores aos seus clubes “de coração”, Zezé, temeroso de que o sucesso subisse à cabeça de Cerezo, fazendo-o deixar o Atlético, sentenciou: 

– Por mim, ele pode quebrar a perna!

Mas fique tranquilo, Giorgian Daniel De Arrascaeta Benedetti, vencedor de duas Copas do Brasil e de um estadual pelo Maior de Minas, com 186 jogos, 49 gols e 37 assistências – sem contar aquela “caneta” humilhante aplicada no pobre Josué, do nosso arqui-rival, em 2015. 

Não lhe quero mal, de forma alguma! 

Na verdade, nesta despedida, digo que estou muito feliz por você! 

De verdade, espero que tenha sucesso nos caminhos escolhidos.

Chego mesmo a sentir um “cheirinho” de títulos e de grandes atuações na sua nova empreitada. 

E, por falar em cheirinho, para encerrar, reitero, só que em português, para não deixar dúvidas: 

Merda, Arrascaeta! 

Muita merda!

 

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