Chegou nossa vez?

Evaldo Magalhães / 31/05/2019 - 06h00

Dizer que sinto uma mistura de vergonha e indignação após as recentes denúncias de irregularidades no Cruzeirão seria chover no molhado. Aliás, acredito que não haja ninguém no mundo mais desejoso de que as falcatruas e malfeitos sejam investigados a fundo – e de que os responsáveis sejam exemplarmente punidos – do que o torcedor do time.

Só que a minha reação envolve também certa surpresa e até uma incômoda desconfiança. Afinal, por que diabos foram escarafunchar logo as mazelas do Cabuloso, sendo que muitas das safadezas apontadas são usuais em grande parte dos clubes brasileiros?

Pelo que me consta, os jornalistas que, por assim dizer, jogaram a caca no ventilador, no Fantástico de domingo, disseram que a reportagem foi só o pontapé inicial de uma série. Eles pretenderiam desnudar gestões fraudulentas em muitas outras organizações do futebol. A ver. 

Contudo, repito: por que deram a partida na história conosco, cazzo?!? Qual o critério? Será que nossos sucessos nos últimos anos, desbancando queridões da mídia como Flamengo, Corinthians e Palmeiras, incomodaram tanto as corporações que comandam o esporte no país? Haveria algum outro interesse por trás da escolha?

Não sei. Até admito que, diante da ameaça de destruição de algo que amo, eu possa estar simplesmente me antecipando a um desfecho trágico e, para citar a psicologia, embaralhando um pouco as cinco fases do luto, com ênfase à “negação” e à “raiva”. De qualquer forma, fico aqui matutando sobre recentes escândalos de outros times que não mereceram, a meu ver, o mesmo fulgor dos holofotes apontados aos dirigentes cruzeirenses. 

Falemos, por exemplo, do “Timão”. Não precisa fazer esforço pra lembrar algumas broncas do alvinegro paulistano: corrupção nas categorias de base, desvios milionários na construção do estádio deles, ligações espúrias entre comandantes da agremiação, políticos e empresas da Lava Jato, como a Odebrecht... Também me ocorre o caso trágico do Flamengo. Quem consegue se esquecer da morte terrível daqueles garotos no Ninho do Urubu, vítimas de crimes indefensáveis?

Claro que houve repercussões disso tudo na imprensa, mas sempre com um tratamento menos severo, caracterizado por visões isentas e sem pré-julgamentos, já que os protagonistas são “galinhas dos ovos de ouro” da televisão tupiniquim. Devo estar escrevendo com mágoa, mas isso não me tira a razão.

Espero mesmo é que a “eleição” do Cruzeiro, para dar início a um suposto movimento de limpeza e moralização do nosso futebol, tenha sido algo fortuito. Seria como naquele famoso filme sobre jornalismo, “The paper” (O Jornal, 1994), dirigido pelo competente Ron Howard (cineasta cuja verdadeira obra-prima, na minha opinião, é a estonteante filha, Bryce Dallas-Howard).

Já na reta final da película, o repórter especial de um tabloide de Nova York encontra-se com o chefe de estacionamentos da prefeitura, que fora personagem em uma matéria investigativa. O jornalista descobriu que o cara tinha multas por parar o carro irregularmente, apesar de cuidar daquele assunto, o que o obrigaria a dar bons exemplos.

Jason Alexander (o George Costanza, de Seinfeld), no papel do tal servidor público, com arma apontada para o repórter, relata que a notícia destruiu a vida dele e pergunta: “Por que eu?”. E o rapaz do jornal, interpretado por Randy Quaid, responde de maneira simplificadora, sorrindo: “Era a sua vez”.

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