Clássico de paz e Bel

Evaldo Magalhães / 19/04/2019 - 06h00

Fica muito difícil escrever coluna que tem a ver com futebol quando se sabe dos incidentes registrados entre cruzeirenses e atleticanos domingo passado, antes, durante e depois do primeiro jogo da final do Mineiro.

Rapaz, teve um cara que quase foi enforcado com uma faixa de quimono! Houve batalhas campais com paus, pedras e bombas em várias ruas da capital e de cidades vizinhas, protagonizadas por dezenas de imbecis que se dizem torcedores. Um show de horrores que sempre se repete.

No gramado, marmanjos metidos a valentões da 5ª série trocaram empurrões e insultos, catimbaram e promoveram confusões ridículas, poucos minutos depois de terem se cumprimentado.

Que belo exemplo eles deram!

Não, não venham me dizer que futebol é “coisa de macho”, um caldeirão de testosterona que a todos intoxica, aflorando o DNA troglodita dos atletas e dos brigões fora de campo. Se é assim, não deveria ser. 

Afinal, trata-se de um esporte saudável e que deveria entreter saudavelmente praticantes e admiradores. Só porque a competição é de intenso contato físico não pode prescindir do respeito, dentro e fora das quatro linhas.

Paixão pelo seu time? Gozações e tirações de onda com amigos e familiares que torcem pelo adversário? OK, isso tudo vale. Mas com civilidade. Com empatia.

Esta semana, minha cachorrinha, a Bel, uma daschund pretinha que acompanhou a mim e minha família por quase 20 anos, despediu-se de nós. Tivemos de sacrificá-la. Foi dramático, doído demais, e ainda estou sob o efeito do adeus. 

Ao desfiar memórias para aplacar a tristeza pela morte da fiel amiga, lembrei-me do medo enorme, do pânico que ela tinha ao ouvir foguetes. Ela tremia, escondia-se nos lugares mais difíceis e tinha até febre. 

E tudo começava só de ela escutar a voz do Rogério Corrêa na TV, iniciando a narração de um jogo qualquer – o que era a senha para futuros estrondos.

Listei mentalmente as inúmeras vezes em que ela sofreu assim, ocasiões quase sempre ligadas aos sucessos ou aos infortúnios de Cruzeiro e Atlético, desde o início do século. É bem verdade que Bel penou mais com as conquistas do meu time e com tropeços de grande repercussão do pessoal de Vespasiano. Mas isso não vem ao caso.

O que interessa é que, para mim, Bel, melhor amiga que tive na vida, ficava apavorada com foguetes não só pelo incômodo que traziam aos ouvidinhos dela, mas porque sempre foram prenúncio, celebração e até trilha sonora de... cenas de violência. 

Soltar foguetes, além de ser judiação com crianças, animais, idosos e animais idosos, é uma forma muito tosca de provocar nossos semelhantes-diferentes. 

É algo que irrita ou amedronta quem já esteja triste justamente pelo que motivou o foguetório, o que costuma potencializar reações agressivas.

Seria bacana se amanhã, independentemente de falhas no VAR e dos acalorados debates que isso pode gerar, não houvesse novas brigas. 

E seria mais legal ainda se as pessoas entrassem, finalmente, numa <CF26>vibe </CF>de paz e tolerância, um troço cada vez mais remoto neste país grande e bobo, evitando também os malditos foguetes.

Aconteça o que acontecer no clássico, vença quem vencer o campeonato!

Eu e Bel, se ela pudesse, agradeceríamos.

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Comentários