Deuses em guerra

Evaldo Magalhães / 26/04/2019 - 07h00

Eu poderia falar do céu de brigadeiro do avião Cabuloso, com direito ao título estadual e à liderança da fase de grupos da Libertas, da estreia no Brasileirão, amanhã, ou de infortúnios alheios. Mas prefiro tratar de outro assunto: o VAR. 

Olha, se houve algum consenso entre cruzeirenses e atleticanos na decisão do Mineiro, encerrada sábado, foi o de que a polêmica novidade veio para... matar o futebol!

Quanta chatice! A cada jogadinha besta, pressionados por torcida, jogadores e por seus próprios temores de fazer besteira, os árbitros, do gramado e da cabine, conversam entre si pelos malditos fones, por intermináveis minutos. Um suplício para quem vai ao estádio ou fica em frente à TV, roendo as unhas.

Sobretudo no jogo do Independência, o futebol, aquele esporte que prima, ou deveria primar, pela dinâmica e pela movimentação constante, ficou desgraçadamente em segundo plano.

E aquela mãozinha do juiz na orelha a cada três minutos? O sujeito lá, todo pimpão, escutando as impressões do colega do vídeo, braço esticado na direção dos afoitos jogadores: “Venham não, venham não! Esperem aí!”... Os caras nos deixam em suspense até em lances de cartão amarelo – o que, convenhamos, contraria as regras do VAR e reforça o caráter insuportável da “novidade”.

Se a bola balança a rede, então, você não pode mais explodir de felicidade ou de tristeza! Tem de esperar sua majestade, o VT, dizer o que aconteceu. 

É como brincar de estátua sem querer brincar: a pessoa só se mexe depois que o homem do apito consulta o maldito oráculo auricular, dure isso o tempo que for, e aponta ou não para o meio do campo. 

Terá sido impedimento? Mão? Houve falta no lance? A cabeça não para de fazer crick-crock e o coração vai a mil. Mas que se dane o coração da gente, não é? 

Imagina ter de aguentar essa lenga-lenga nos 380 jogos do Campeonato Brasileiro!? 

Tudo isso me leva a fazer uma associação com a trama de “Deuses Americanos”, livro de Neil Gaiman que virou série em um canal de streaming.

Na obra, Gaiman fala de deuses ancestrais, adorados por povos antigos da África, da Europa e da Ásia, que, assumindo a figura humana, são levados para a América, graças à sua inscrição na memória e na alma dos primeiros colonos.

Num belo dia, tais deuses, que vivem de forma decadente e parecem fadados ao esquecimento, são confrontados por novas divindades, surgidas dos cultos típicos da pós-modernidade – a tecnologia, a TV, a mídia, a Internet. Daí, eles tentam juntar os cacos para uma guerra.

Sinto que os deuses do futebol vivem momento semelhante. Figuras míticas como o “Sobrenatural de Almeida’, o “La Mano de Dios”, o “Foi Pênalti, Mas o Juiz Não Viu” e seu irmão “Não foi Pênalti, Mas o Juiz Viu” – os dois integrantes de um “Timão” de potestades –, além do famoso “Fomos Garfados” (bastante admirado em Vespasiano), estão sob ataque severo do supremo deus VAR, braço futebolístico do Olimpo tecnológico.

É fato que, mesmo com todos os defeitos, e do alto do pedestal da falibilidade humana, os deuses antigos eram muito, mas muito mais divertidos! Enfim... Mesmo ciente de que o VAR está aí para ficar, não suporto mais os “sacrifícios” que sou obrigado a fazer em sua homenagem, como o de assistir às partidas em que é usado.

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