Números e sacadas tolas

Evaldo Magalhães / 03/05/2019 - 06h30

Não tem muito tempo, alguns profissionais do jornalismo esportivo brasileiro, especialmente os que cobrem futebol, deixaram-se seduzir pra valer por uma tendência surgida na “gringa”, muito antes: a de valorizar números e estatísticas em detrimento da abordagem, digamos, mais tradicional dos noticiários, calcada em histórias, observações e relatos sobre treinos e jogos e em declarações de atletas, técnicos e dirigentes.

Há muita gente fera por aí, nas redações do país, que pareceu ter encontrado nisso uma espécie de cálice sagrado. Viram a interpretação de desempenhos como a sonhada cura para a mesmice e a ausência de novos enfoques e angulações no acompanhamento de clubes e campeonatos. Se tem algo que assombra os escribas do ludopédio é o marasmo. E as estatísticas poderiam acabar com isso.

É claro que, nos esportes, há ainda pauteiros e repórteres que primam mais pela “criatividade” do que pela lida com números. São, igualmente, tiradores de leite de pedra: ficam o tempo todo matutando formas, às vezes poéticas ou pitorescas, de apurar histórias. Buscam pêlos em ovos e chifres em cavalos, reportagens mágicas e “diferentonas” que possam dar um ‘up’ nas edições.

Destaco que as duas categorias não são excludentes e ambas dão importantes contribuições para que o futebol fora das quatro linhas fique menos chato. Gosto muito de tal mix de vertentes.

Tanto que resolvi dar uma conferida detalhada no histórico dos campeões do Brasileirão por pontos corridos. Foi uma maneira de lidar com a frustração pela nossa derrota para o Flamengo (3 a 1), logo na abertura do torneio deste ano, e de tentar me animar após a vitória magra sobre o Vozão (1 a 0), no meio da semana – com show de Fábio, que pegou seu 26º pênalti com o manto celeste e só não fez chover no Mineirão.

O que descobri na incursão pelo universo dos números – um tanto tola, admito, porque elencos e técnicos mudam sempre, e não sobra muita racionalidade à minha pesquisa – foi que, nas últimas 16 edições do certame, o vencedor começou perdendo na primeira rodada quatro vezes (25%). Santos, em 2004, Flamengo, em 2009, e Fluminense, em 2010, foram batidos fora de casa, como aconteceu conosco desta vez. Só o São Paulo, em 2008, teve o dissabor na estreia dentro de seus domínios. 

Também vi que em nada menos que seis vezes (37%) os campeões somaram só três pontos após o término do segundo round da disputa – mais uma vez, nosso caso. E em apenas três oportunidades (18,7%), o dono da taça venceu na primeira e segunda rodadas, como ocorreu este ano com o Galo: em todos os casos, a proeza foi do “insuspeito” Corinthians, em 2011, 2015 e 2017.

A parte triste mesmo é que, nos três títulos celestes dentro do atual modelo do certame, fizemos quatro pontos, e não três, nas duas primeiras partidas. Portanto, se formos campeões de novo, este ano, vamos quebrar uma escrita. Mas escritas não existem para ser quebradas?

Ainda sobre números: gastei exatos 31 minutos para fazer o “estudo” acima e para escrever esta crônica. Trinta é o número do Thiago Neves, autor do gol contra o Ceará, e 1 é a camisa do Fábio, o melhor goleiro do Brasil. Isso não é incrível? Não, não é.

Que venham agora o Goiás, na terceira rodada, e o nosso milésimo ponto, desde 2003. 

E que venham o Fluminense, nas oitavas da Copa do Brasil, e a promissora sequência da Libertadores.

 

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Comentários