Que os sinos voltem a dobrar por ti, ó Cabuloso!

Evaldo Magalhães / 07/06/2019 - 06h00

São ao menos duas as possíveis origens da expressão “Salvo pelo gongo”, ou “Saved by the bell” (Salvo pelo sino), como dizem na língua da rainha da Inglaterra. A primeira – e chamo-a de primeira por ser a mais curiosa – diz respeito a uma invenção oriunda também da terra da tal rainha, entre os séculos 17 e 18.

Consta que, em meio a doenças que dizimavam milhões – peste bubônica, cólera, tuberculose etc –, havia duas questões sérias a enfrentar por lá. Primeiro, a ilha, de dimensões reduzidas, tinha pouco espaço para enterrar as pessoas. Isso obrigava as autoridades a exumar cadáveres constantemente, após determinado período, para separar os ossos em caixas e preparar aqueles túmulos para receber novos “moradores”. 

Acontece que, quando abriam alguns caixões, os caras notavam arranhões e outros sinais inequívocos de desespero, indicando que algumas pessoas poderiam ter sido sepultadas com vida. A notícia se espalhou, e o pânico foi geral.

Daí, veio a ideia de construir um engenhoso sistema de roldanas e cordas que ligava o interior dos caixões a sinos instalados na superfície, bem em cima das lápides. Se o morto-vivo “acordasse”, puxava a cordinha, alertava o coveiro e era salvo pelo sino.

Outra origem plausível tem a ver com o boxe. Embora milenar, a arte de brigar aos socos começou a se profissionalizar na mesma Inglaterra, também no século 17. Um tal Marquês de Queensbury criou regras para o esporte, como a obrigatoriedade do uso de luvas e a delimitação do espaço da luta por cordas (o ringue), e introduziu o sininho, tocado ao fim de etapas do combate (rounds). 

Desse modo, um sujeito estropiado de tanto levar porrada podia ter um respiro entre as etapas da luta. Era, mesmo que momentaneamente, “salvo pelo gongo”.

Ambas as explicações funcionam para ilustrar o que deve acontecer com o Cruzeiro, na quinta-feira que vem, quando a temporada for interrompida para a Copa América. Envolvido em escândalos administrativos e com um futebol questionável – a despeito, claro, da classificação dramática para as quartas da CB, no Mineirão, contra o Fluminense, em partida perfeita de TN10 e Fábio –, o time será abençoado por uma espécie de sino imaginário.

Estou confiante de que vai ser um tempo precioso, e bem aproveitado, para que coloquemos as coisas no lugar, dentro e fora de campo. Assim, voltaremos em julho com toda a força para buscar uma subida inédita na tabela do Brasileirão e encarar confrontos difíceis na Copa do Brasil e na Libertadores.

Para completar, talvez seja bacana refletir sobre uma terceira hipótese quanto ao nascimento da frase mencionada no início do texto – algo que nem é muito lembrado pelos entendidos em origens de expressões idiomáticas. 

Em muitas religiões, os sinos são usados para chamar os fieis para cerimônias litúrgicas. É assim, por exemplo, no budismo, no qual o agradável som metálico de sinetas convoca adeptos a recitações, ao culto ao sagrado e ao “eu interior”, e no catolicismo, quando badaladas vindas das igrejas avisam que a missa vai começar.

Será o momento em que Mano e os jogadores poderão alternar treinos e muita meditação para conduzir-nos a um patamar mais elevado. Podem chamá-lo de céu, de nirvana ou de títulos. O importante mesmo, com a licença do poeta John Donne, morto coincidentemente no século 17, e do fantástico Hemingway, é que os sinos voltem a dobrar, de alegria, pelo Cruzeirão!

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