Apple e a ilusão do almoço grátis

Guilherme da Cunha / 19/10/2020 - 06h00

Semana passada, mais um escândalo político estampou as páginas policiais, episódio similar ocorrido durante o primeiro governo Lula.

Mas hoje tratarei de outra notícia: a decisão da Apple de passar a vender iPhones desacompanhados de carregadores e fones de ouvido. Pode parecer trivial diante do escândalo que assistimos, mas as reações de revolta com a Apple merecem reflexão. 

A revolta consistiu em dizer que era um absurdo a Apple deixar de enviar um acessório essencial ao aparelho e, basicamente, forçar o consumidor a comprá-lo separadamente, pagando a mais por isso. A revolta parte da crença de que existe almoço grátis. No caso, carregador ou fone de ouvido grátis. A verdade é o oposto.
Carregadores e fones possuem custo e valor. Ao incluí-los na caixa do aparelho celular, a Apple embutia o valor desses acessórios no preço do aparelho. Ela fazia os seus consumidores pagarem a mais independentemente de desejarem ou necessitarem dos acessórios. O poder de escolha desaparecia. 

Uma pessoa que já possuísse um iPhone e quisesse apenas fazer a troca por um mais moderno, era obrigada a pagar por outro carregador. Quem desejasse adquirir carregador de outra marca, era obrigado a pagar por um da Apple, mesmo contra sua vontade.

Se, ao invés de enviar na mesma caixa, a Apple determinasse que uma pessoa só poderia adquirir o iPhone se fizesse junto outra compra, de um carregador e um fone, a reação seria outra. Haveria revolta pela venda casada, talvez até atuação do Procon. O que muda quando essa venda casada ocorre na mesma caixinha?
Muda o referencial, e isso muda a percepção sobre a conduta. O que é uma venda casada acaba sendo percebida como brinde. Afinal, a empresa acabou de vender algo para alguém que, se fosse escolher livremente, talvez não comprasse o acessório. Empresas fazem isso o tempo todo, governos também. Dizem que é grátis, fazem até quem não quer aquele produto ou serviço pagar por ele. 

Parabéns à Apple por parar sua venda casada, por dar transparência sobre o custo das coisas e por dar ao consumidor a opção de adquirir ou não seus acessórios. Aos críticos, e aos leitores que estão conhecendo o caso agora, fica o convite à reflexão: olhe à sua volta e observe, desde o bônus de internet na assinatura de um serviço de telefonia, passando pelo ketchup na lanchonete e por alguns serviços públicos, quantas coisas “grátis” lhe são ofertadas. Você já paga por todas elas. E, em tempos de eleições, deixo o alerta: cuidado com candidatos que prometem mais coisas “grátis”. Eles vão te fazer pagar por elas, mesmo que você não as use.

 

 

 

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