Atravessamos o Rubicão?

Guilherme da Cunha / 07/06/2021 - 06h00

No dia 10 de janeiro de 49 a.C., Júlio César, então comandante da 13ª Legião Romana, atravessou o Rio Rubicão com seus soldados e mudou definitivamente o curso da história.

Até então uma república, as leis de Roma impediam que generais adentrassem o território da província da Itália no comando de tropas e o Rubicão era o rio que marcava a fronteira entre essa província e a da Gália Cisalpina. Ao violar o regulamento, Júlio César desencadeou uma guerra civil que durou cinco anos, acabou com a vida de milhares de romanos e terminou com ele declarado ditador vitalício. E ele de fato foi ditador até o último de seus dias, que não foram muitos, pois menos de três meses após sua aparente vitória, César foi assassinado no Senado Romano por opositores de sua ditadura.

Após o assassinato de César, Roma não voltou a ser uma República como queriam seus opositores. Em lugar disso, uma nova guerra civil se instalou, tirando mais inúmeras vidas e provocando nova onda de destruição, e só terminou quando César Augusto, vencedor, foi declarado Imperador. Alguns rios, quando cruzados, não permitem retorno.

No dia 3 de junho, o Exército decidiu não punir o Gen. Eduardo Pazuello por sua participação em ato político de apoio a Jair Bolsonaro. Pazuello é general da ativa, e o regulamento disciplinar do Exército proíbe participação de militares da ativa em atos partidários ou eleitorais e em quaisquer manifestações coletivas de caráter político.

Pazuello, que chegou a subir em carro de som e discursar durante o evento, atravessou duas linhas muito delicadas com seu ato. Primeira, a da quebra da disciplina, conceito essencial para o meio militar, agravada por partir de um general. Segunda, a de politização das forças armadas, e com todas as divergências e enfrentamentos que gera, podemos dizer que é perigosíssima a combinação de política com armas.

Ao permitir que a travessia feita por Pazuello passasse impune, o comando do Exército deu as mãos a ele em sua violação do regulamento, desmoralizou a disciplina e aceitou a política nos quartéis. A deterioração das instituições avança cada vez mais sobre terreno perigosíssimo e ao cidadão desarmado e impossibilitado de resistir a passos mais ousados de quem detém as armas, só resta torcer para que seja um ato isolado. E, quando cidadãos desarmados ficam na posição de meros torcedores diante de quem detém o monopólio da força, é sinal de que “todo o poder emana do povo” pode a qualquer momento se tornar uma ficção, com o povo soberano assumindo a posição de refém dos caprichos da força.

Tempos sombrios.

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