O futuro além das trincheiras

Guilherme da Cunha / 10/05/2021 - 06h00

 

“- Quem estará nas trincheiras ao teu lado?
‐ E isso importa?
‐ Mais do que a própria guerra.”

Esse diálogo, atribuído ao escritor americano Ernest Hemingway, é de uma beleza ímpar, resumo curto e completo da importância de escolhermos bem nossas companhias e alianças, acima até mesmo da escolha das batalhas que escolheremos travar na vida. Discordo dele.

Não é uma discordância total. Reconheço valor na citação, como é com quase tudo na vida. Poucas coisas são binárias, preto no branco, e eu substituiria apenas o “mais do que a própria guerra” por “tanto quanto a própria guerra”. Diferença pequena, mas fundamental, especialmente nesses tempos de polarização.

Tem sido terrivelmente comum pessoas se definirem politicamente mais pelo que são contra do que propriamente pelo que desejam construir. E, a partir dessa definição e da identificação de um inimigo comum, se atribuírem um rótulo e encontrarem pertencimento e propósito, sentirem-se parte de um grupo e ter alguém para estar com elas nas trincheiras. Há conforto nessa sensação.

Há, também, perigo. Dois, para ser mais preciso. O primeiro, de suspenderem qualquer análise crítica sobre o que fazem os colegas de trincheira e defenderem cegamente suas ações, sob o pretexto de que se não o fizerem o inimigo ganhará terreno. Disso resultam pessoas que desejam mais liberdade e se rotulam “de direita” defendendo intervenção militar, ou pessoas que desejam mais igualdade e se rotulam “de esquerda” minimizando ou tolerando corrupção.

O segundo é passar a enxergar a política, quando não muitos outros aspectos da vida, como guerra, e rejeitarem automaticamente qualquer ideia, proposta ou realização que venha do chamado “outro lado”, acabando com o diálogo, com a diversidade e com a chance de construção de um futuro que não seja fundado sempre no conflito.

Muitas ideias boas se perdem no barulho das bombas, muitas bandeiras brancas deixam de ser vistas na profundidade das trincheiras e quase sempre o que sobra são só as crateras da terra de ninguém. Crateras na sociedade, nas famílias, nas amizades, no país. E o massacre daqueles que, no espaço entre as trincheiras, buscam construir algo e recebem bombas dos dois lados, eternizando o ciclo da polarização.

Que, seguindo Hemingway, escolhamos com muito critério nossas companhias e alianças, mas que não abandonemos nunca nossa atenção às razões pelas quais lutamos, nosso foco no que queremos construir e nossa capacidade crítica de avaliar as nossas próprias ações e as daqueles ao nosso lado. O porquê importa tanto quanto o com quem.

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