O poço da política

Guilherme da Cunha / 23/11/2020 - 06h00

O filme “O Poço” retrata uma prisão vertical com prisioneiros distribuídos em vários andares. Nela, a comida começa a ser distribuída pelo andar de cima para os prisioneiros do topo se servirem à vontade. O que sobra é remetido ao andar de baixo, que repete o procedimento e, por sua vez, manda suas sobras para quem está abaixo. Nos níveis inferiores, frequentemente falta comida. A cada período de tempo, as posições dos presos nos andares são alteradas. Quem sobe, apesar de ter passado fome quando estava embaixo, adota comportamento similar aos de cima e come mais do que o necessário.

Várias cenas chocam pelo “gore”, mas um aspecto em especial me incomoda mais: apesar de estarem sujeitos à fome quando ocupam os andares mais baixos, os prisioneiros resistem a mudanças no sistema e anseiam não por uma saída da prisão, mas por terem a chance de subir.

Nesse aspecto, o filme me lembra muito nosso sistema político atual, em especial a destinação de emendas parlamentares. No momento dos parlamentares indicarem para onde serão destinados os recursos públicos constantes do orçamento, vemos os impostos que devem atender a todo o Estado serem servidos primeiro para os andares de cima.

No topo estão os municípios que conseguiram eleger um deputado e a expectativa deles é pegar a maior parte possível do banquete. Acontecem desperdícios. Logo abaixo estão municípios que não elegeram deputados, mas cujos prefeitos ou lideranças locais conseguiram costurar acordos com deputados, frequentemente envolvendo envio de recursos agora e promessas de apoio futuro. Estes recebem os restos, mas ainda comem.

Lá embaixo estão os municípios “sem força política”. Os impostos deles contribuem para formar o banquete, eles estão cheios de necessidades, mas muitas vezes passam fome.

Estamos em época de formulação do orçamento e não foram poucos os contatos que já recebi de lideranças de municípios que estão embaixo perguntando se eu gostaria de ser “o deputado da região”. Leia-se: se toparia destinar recursos para eles, em um acordo político. O esforço deles é para subir de andar, não para mudar o sistema.

O meu, não. Junto do deputado federal Tiago Mitraud, recuso-me a participar desse sistema, a “adotar” municípios ou fazer os acordos que beneficiam alguns, em detrimento de outros. Destinamos nossas emendas de forma técnica, sem indicação política, por meio de edital aberto para a participação de todos municípios, tenhamos ou não sido votados neles. É o maior edital desse tipo no Brasil. Convido todos a conhecer, e em especial os colegas deputados a aderir e a ajudar Minas e o Brasil a saírem desse Poço que deixa tantos à míngua para beneficiar tão poucos.

 

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