O que a vida quer da gente é coragem

Guilherme da Cunha / 09/11/2020 - 06h00

Tenho em meu gabinete um quadro com a frase que dá título à coluna, do magistral escritor mineiro Guimarães Rosa. Ganhei de um eleitor na época da votação do reajuste salarial dos policiais mineiros, quando, por ter sido contrário e manifestado da tribuna minha opinião, tive que sair escoltado do Plenário e responder processo por quebra de decoro, já devidamente arquivado.

A coragem, dizia Churchill, é a primeira das virtudes, pois é ela que garante todas as demais, especialmente nas horas mais difíceis. Churchill foi um exemplo de coragem na política, mas não precisamos ir longe para encontrar outros exemplos.

Nas últimas semanas, o deputado federal Tiago Mitraud (Novo-MG) tem demonstrado grande coragem em defender abertamente a reforma administrativa, o fim de privilégios, especialmente para a elite do funcionalismo público, juízes e políticos, e uma revisão da estabilidade do servidor para introduzir análises efetivas de desempenho e formas modernas de gestão que estimulem a melhoria do serviço ao cidadão. Tiago tem se mantido firme perante intensos ataques de servidores contrários à reforma, alguns bastante agressivos.

Na semana passada, o deputado estadual Alexandre Freitas (Novo-RJ) demonstrou enorme coragem ao votar a favor do impeachment de governador Wilson Witzel, mas contra a remoção dele do Palácio Laranjeiras. É óbvio que político habitando palácios constitui um privilégio que a população repudia e o próprio deputado declarou repudiar também. É óbvio que esse repúdio aumenta com o fato do político em questão estar sendo afastado por denúncias de corrupção. E é igualmente óbvio que o deputado sabe dessa opinião da população e sabe que seu posicionamento foi profundamente impopular. Mas era o certo a ser feito, com as leis que temos. A lei é ruim e deveria ser mudada, mas está em vigor e tem que ser respeitada. É preciso coragem para respeitar a lei e se expor com uma decisão tão impopular, especialmente para quem é político e depende de votos.

E, por falar em votos, é preciso muita coragem para, durante o período eleitoral, evitar o discurso populista e as promessas fáceis de coisas “grátis” e ampliações de serviços para os quais é sabido não haver dinheiro. Coragem para não iludir a população, ainda que isso custe ao candidato a chance de eleição. Há candidatos concorrendo com essa coragem, demonstrando desde já a primeira das virtudes. A eles, todo meu respeito e admiração. E apoio também. Afinal, coragem é não só o que a vida quer da gente, mas também o que a política no Brasil mais precisa.

 

 

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