A multiplicação dos ‘guardas da esquina’

Jorge Alexandre / 11/10/2018 - 06h00

O jurista mineiro Pedro Aleixo era vice-presidente da república no mandato ditatorial do general Costa e Silva. No momento da instauração do Ato Institucional No. 5, o tenebroso AI-5, teria dito ao ilegítimo mandatário que o maior perigo resultante de tal arbítrio seria o “guarda da esquina”. Ou seja, em um ambiente autoritário, muitos indivíduos - principalmente aqueles com um mínimo de autoridade atribuída pelo Estado - sentem-se poderosos e autorizados a cometer todo tipo de arbitrariedade.

Infelizmente, estamos assistindo, como nunca, a multiplicação dos “guardas da esquina”, agora personificados em homens sem mesmo qualquer tipo de autoridade formal. A quantidade de casos de violência (incluindo também policiais, mas em pequena minoria) de indivíduos que evocam o deputado Jair Bolsonaro no momento de seus atos é absolutamente assustadora.

Há todo tipo de violência. Muitas físicas, outras morais. No caso das violências morais, tive o desprazer de ver algo de perto. Uma adolescente com a qual tenho relação de parentesco e cursa o ensino médio em uma escola privada de Belo Horizonte, nos enviou uma foto do quadro da sua sala da aula, após retornar do horário de recreio. Havia uma mensagem cuja linguagem lembrava muito a da gravação da fala do rapaz mineiro que foi acusado de espancar a namorada, também mineira, em Miami. Uma linguagem que estabelece a absoluta e indiscutível superioridade do homem sobre a mulher. Junto com a mensagem do colega de classe da minha parenta, vinha uma apologia à figura do deputado Jair Bolsonaro.

O deputado Bolsonaro se eximiu da responsabilidade sobre quaisquer desses atos de terceiros. É óbvio que ele não praticou diretamente nenhum desses atos. Todavia, visto que até homicídios já ocorreram, neste final de semana, por autores que evocaram seu nome no momento do crime, o mínimo que ele poderia fazer seria se pronunciar de forma contundente contra a violência. Inclusive, como ele foi vítima de um ato covarde de violência, deveria estar até emocionalmente atado a uma mensagem pacifista, neste momento. Todavia, não foi isso que assistimos. O que vimos foi uma foto sua com as duas mãos em forma de pistola, nos seus primeiros dias de convalescença, no hospital. 


Infelizmente, o crescimento da mensagem e da figura política do deputado Jair Bolsonaro só incentiva a violência. Em particular, as mulheres devem se preocupar com essas mensagens. Após anos de avanço no combate à violência doméstica e ao feminicídio - em particular com a aprovação da Lei Maria da Penha - assistimos ao crescimento de uma cultura de tolerância e naturalização da violência contra a mulher. Lamentável e assustador! Como pai de filhas adolescentes, estou profundamente preocupado!

 

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Comentários