Crise e fusões na mineração

José Antônio Bicalho / 30/04/2015 - 08h26

O ritmo de fusões e aquisições entre empresas é um termômetro importante para medir o dinamismo dos setores econômicos. Teoricamente, uma queda significativa no número de transações refletiria o ambiente hostil para negócios em determinado setor e vice-versa.

Essa é a leitura que fazem analistas e investidores do mercado financeiro que utilizam os dados de fusões e aquisições para orientar investimentos. Mas a abordagem simplista pode levar a conclusões equivocadas. Na prática, a dinâmica é um pouco mais complexa.

Este é o caso da mineração. O setor enfrenta atualmente um dos ciclos mais agudos de queda de preços e desaceleração da demanda mundial, mas recuperou um ritmo positivo de operações de fusões e aquisições.

De acordo com levantamento do escritório brasileiro da KPMG, feito a pedido desta coluna, em Minas Gerais o setor de mineração registrou seis operações no ano passado, contra duas em 2013. Enquanto o crescimento na mineração foi de 200%, no global da economia mineira as operações de fusão e aquisição caíram 27%, de 55 para 42 negócios.

Na verdade, o que acontece normalmente é uma queda substancial das operações num primeiro momento de um ciclo econômico ruim para determinado setor. Mas, passado algum tempo, os ativos começam a registrar uma perda significativa de valor em função, justamente, do aprofundamento desse ciclo negativo. Desvalorizados, voltam a ser atrativos como investimento de longo prazo, despertando novamente o apetite dos compradores.

É isto que estaria acontecendo na mineração. Em Minas, a maior parte das operações aconteceram no segundo semestre, quando a crise estava configurada e a precificação dos ativos já teria incorporado a nova realidade dos preços internacionais do minério de ferro.

Para este ano, a expectativa é de uma nova onda de fusões e aquisições. O alvo principal seriam as pequenas mineradoras, que tiveram suas operações inviabilizadas pela atual cotação do minério, abaixo dos US$ 50 a tonelada entregue na China. Inviáveis para atuar sozinhas, mas ainda interessantes para agregar volumes aos negócios das grandes mineradoras que atuam no estado.

Sobre isso, conversei com o sócio da KPMG, Paulo Guilherme Coimbra, que disse que “o número de transações cresce quando o setor vai muito bem ou muito mal”.

Segundo Coimbra, o que deve permanecer estacionado são os negócios de venda de projetos greenfield, ou seja, aqueles que ainda não saíram do papel e que necessitarão de grandes aportes e maturação de longo prazo até que se façam produtivos e lucrativos. “Para estes, não existe qualquer expectativa”, disse Coimbra.

Essa é uma péssima notícia para a economia mineira, já que grandes projetos de mineração foram anunciados nos últimos anos e colocados em banho-maria desde o início do ciclo de baixa da cotação das commodities, na passagem de 2012 para 2013. É o caso de mega-projetos como os da Manabi (em Morro do Pilar), da Sul Americana de Metais (no Norte de Minas), da Vale (Projeto Apolo, em Caeté), da Mineração Minas-Bahia (Grão Mogol e Rio Pardo de Minas), e outros menores, que juntos somam algumas dezenas de bilhões de reais em investimentos.
 

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