O desinvestimento estratégico da Vale

José Antônio Bicalho / 13/10/2015 - 06h42

A Vale segue em sua estratégia de proteger o caixa nesse momento difícil para as commodities. Está vendendo o que consegue de seus ativos não estratégicos e fechando todas as torneiras. O objetivo é claro: fazer caixa para financiar seu pesado programa de investimentos sem desequilibrar a relação entre receitas e endividamento.

Na última sexta-feira, a fabricante norueguesa de alumínio Norsk Hydro informou que assinou com a Vale carta de intenções para a compra da participação de 40% da mineradora brasileira na Mineração Rio do Norte, a maior produtora de bauxita no Brasil, no Pará. A Vale participou da implantação da Rio do Norte e está na empresa, que divide com outros cinco sócios, desde 1973.

O anúncio acontece na sequência de outro feito pela diretoria da Vale de que será cortada pela metade a segunda parcela dos dividendos de 2015, que cairão de cerca de US$ 1 bilhão para US$ 500 milhões. Esta seria a primeira vez em décadas que a Vale pagará menos que o teto previsto no estatuto da empresa, de 6% do capital integralizado.

Desde 2011, a Vale já vendeu R$ 11,2 bilhões em ativos, incluindo os 36,4% do capital da MBR, que lhe valeram R$ 1,2 bilhão, pago em setembro. No mesmo período, em novas aquisições a empresa despendeu R$ 3,7 bilhões. Cinco vendas concretizadas nesse ano (logicamente, ainda não contabilizada a Rio do Norte) já renderam à mineradora R$ 2,1 bilhões. Isso é 112% a mais que os R$ 990 milhões obtidos com os dois desinvestimentos realizados no ano passado, e 914% a mais que os R$ 207 milhões das três operações de 2013.

Essa aceleração das vendas de ativos seria sinal de fragilidade financeira ou dificuldades de fluxo de caixa? Não exatamente. Nos últimos seis meses, o preço do minério de ferro, principal negócio da Vale, vem resistindo bem acima dos US$ 50 a tonelada, tendo ultrapassado o teto dos US$ 60 entre maio e meados de junho últimos.

É pouco, logicamente, quando comparado aos US$ 80 a tonelada que se conseguia em setembro do ano passado, ou ao pico de US$ 187 de fevereiro de 2011. Mas a Vale é hoje uma das mineradoras com o menor custo de produção do mundo até o porto de embarque, o que lhe garante margens inclusive no longínquo mercado chinês, desde que as cotações permaneçam acima dos US$ 40.

Mas, como já afirmei em outras colunas, a estratégia da Vale está centrada na estruturação da empresa para o novo ambiente global de negócios para minério de ferro. Os picos de preço do passado recente foram motivados por um crescimento da demanda chinesa muito acima da capacidade de aumento da oferta e é uma situação que não se repetirá mais.

Com a desaceleração da China, a estratégia das três grandes do mercado mundial de minério de ferro (Vale, BHPBilliton e Rio Tinto) está centrada em três pilares: redução de custos, desinvestimento de ativos não estratégicos e gestão pelo caixa (a redução do pagamento de dividendos é um exemplo).

Quem pensa que a queda do preço do minério tira o sono de uma dessas três grandes está enganado. Elas sabem que esse recuo, que é típico de um mercado movido a ciclos, tirará de combate boa parte dos competidores de pequeno porte, de baixos volumes e sem custos competitivos.

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