Desapegue sem desistir

José Roberto Lima / 21/07/2021 - 06h00

Nesse mundo moderno, em que muitas pessoas querem objetivar e precificar tudo, há quem prepare seus estudos para um concurso ou para o Enem como se a derrota fosse a maior das tragédias humanas. Um candidato assim não consegue se desapegar da frase “eu tenho que passar”.

Quando o estudante é de uma condição social privilegiada, a cobrança sobre si mesmo costuma ser ainda maior. Talvez até já experimentou o fracasso, mesmo tendo crescido nas melhores escolas e com os melhores materiais didáticos. Ah, e como dói saber que um morador de rua encontrou material didático no lixo, frequentou escola de periferia e foi aprovado.

O apego desses candidatos é o mesmo apego que, infelizmente, muitas pessoas têm quanto aos bens materiais. Conheci um aluno, já de meia-idade, que viveu feliz durante anos com sua companheira.

Mas a objetivação e o apego começaram com os filhos. Ele não suportava que a mãe fosse mais querida que o pai. E os doutrinou para verem nela a figura violenta, histérica e opressora, sem que ela jamais tenha sido violenta, histérica ou opressora.

Na separação, revelou-se o lado mais ridículo dessa mentalidade: ele foi em um dos imóveis do antigo casal e subtraiu tudo que achava que era dele, fazendo justiça com as próprias mãos.

E levou desde lustres coloniais, passando por cordão de ouro e indo até puxadores de gaveta. E eis um detalhe: na constância da relação conjugal, ele havia dito várias vezes que os puxadores eram dele, porque comprou em Buenos Aires, pela “fortuna” de dois pesos a dúzia.

Com tanto apego às coisas materiais, você acha que ele conseguiu se libertar da frase “eu tenho que passar”? Não mesmo. Apesar de ter tentado vários concursos, não conseguiu aprovação na maioria deles.

O enredo era assim: diante da primeira questão, ele não se lembrava do tema. Indo para a segunda questão, ele não entendia o enunciado. Aí, batia o desespero, sem lhe ocorrer uma respiração profundo para pensar: “a vida não se resume a um concurso, haverá outras lutas para vencer”.

E, com a frase “eu tenho que passar” martelando na sua cabeça, ele nem sequer conseguia ler a prova adequadamente. No dia seguinte, com a correção na escola preparatória, ele se dava conta de tantas questões fáceis que havia errado.

Ele só conseguirá triunfar, como ocorreu com a ex-companheira, quando se desapegar das coisas, inclusive dos próprios concursos. Porque eles sempre voltam. Então – leitor – desapegue sem desistir.

A todos eu desejo bons estudos.

 

 

 

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