Após São Miguel

Manoel Hygino / 08/10/2019 - 06h00

Daqui a pouco outubro chegará ao meado (não miado). Mineiros confiam nas chuvas. No Norte, o nosso, choveu no dia de São Miguel Arcanjo, depois dos pingos da véspera. Caiu uma coisinha de água em terras ermas, como li em prestigiado veículo de comunicação.

Ao dealbar, como repetiu o jornalista, veio razoável chuva, de 5mm. Arrastou novas esperanças. Impôs o frescor na manhã. Acordou os pássaros mais cedo. Instaurou a alegria dos ninhos. Pôs aroma nas velhas árvores e arbustos, agradecidos. Despertou o relvado, exangue. Louvada seja a chuva, e louvado seja o seu irmão Francesco de Assis, do Cântico das Criaturas.

O domingo seguiu nublado pela manhã, propício a mais chuvas, com nuvens por todo o horizonte, e o novelo delas vai debruçado sobre a serraria, faz dela travesseiro. Serraria – que não é Serra do Mel, onde acharam este nome? –, mas é a serra dos “montes claros”, que dão nome à cidade.

Chamo atenção para a meteorologia, que já admitia chuva no período. Acertou. Mas quero alertar para a sabedoria popular.

Sabemos de muitas décadas, centúrias, que o Dia de São Miguel é a data que abre, desata o período das águas; nosso “inverno” em plena Primavera. Quase todos já ouvimos que é por volta do Dia de São Miguel, intrépido, fim de setembro, que devemos aguardar as chuvas inaugurais, pioneiras. A Chuva de Broto.

José Ponciano Neto, técnico em Meio Ambiente e Recursos Hídricos conta: o “desenvolvimento sustentável” tão badalado na Conferência Eco-21 (Rio) na elaboração da “Agenda 21” ainda não é realidade. A falta de políticas pode levar o nosso planeta a uma autodestruição – é a teoria do francês Antoine Lavoisier. Como o planeta não cria, tudo vai se transformar. Partindo deste princípio, virão mais tempestades – erupções, terremotos, longas estiagens.

Quando a consciência da humanidade acordar para ecologização poderá ser tarde – e a problemática do ethos continuará a ser uma incógnita entre as partes: os que querem destruir deixando passivos, que pensam em conservar, e aqueles que tentam recuperar o irrecuperável.

Estão destruindo as áreas de “recargas” – nestas, a maioria deu lugar à silvicultura, que também destruiu para sempre várias e várias veredas; concomitantemente a destruição dos olhos d’água. O desmatamento das arvores nativas é o início da desertificação – depois vão querer recuperar o “irrecuperável”.

Muito se discute e pouco se chega ao denominador comum. A Cúpula do Clima é novamente o centro das atenções do mundo, das pessoas “ecologicamente corretas”. O que esperam as autoridades da Organização das Nações Unidas? Como as decisões das nações irão afetar o nosso dia a dia? Que resoluções irão favorecer a gestão hidrológica com sustentabilidade? O Norte de Minas espera decisões para agir localmente com os rios das Velhas, Verde Grande e Pacuí.

Os rios estão perdendo para o homem, suas águas estão sendo interceptadas antes de atingir os lençóis que os alimentam. É quase uma utopia querer revitalizar o Verde Grande como em anos idos.

Conheci o Verde Grande na sua plenitude. Achava – até uns dez anos atrás, que ele voltaria novamente a ser perene, o ano todo, mas depois que o alto da sua bacia hidrográfica virou tapete para eucalipto e pinus; e o baixo, ao longo do talvegue, virou uma tábua de pirulito com milhares de poços profundos perfurados sem técnica e na clandestinamente. - Abdiquei! Assim, aliás, também é o moribundo Congonhas em Itacambira. O dia de São Miguel passou, as chuvas de outubro e novembro vêm aí.

 

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Comentários