As festas de agosto

Manoel Hygino / 13/08/2019 - 06h00

As festas de agosto se realizam no Norte de Minas, mais precisamente em Montes Claros, há mais de cem anos. São festas religiosas em homenagem a Nossa Senhora do Rosário, São Bendito e ao Divino Espírito Santo, respectivamente. Quem o conta é o médico e historiador Hermes de Paula. Ele pormenoriza: além das práticas estritamente religiosas, como bênçãos, missas e levantamento de mastros, há ainda os marujos, cabocladas e/ou caboclinhos, catopês ou dançantes, cavalhadas, bumba meu boi, estas desaparecidas há anos dos programas.

O registro mais antigo dessas festividades é de 23 de maio de 1839, não se relacionando quais eram, mas pela coroação do segundo imperador, após o cortejo ou passeata em honra e com a efígie de D. Pedro II. Eram permitidos divertimentos durante três dias, desde que “não ofendamos a moral pública. O escritor explica que os divertimentos como o zumbi ou congada em outros lugares existiam, mas com certas características regionais.

Detalhe: os participantes eram na maioria pretos dóceis e alegres, agrupados em ternos, isto é, de mais ou menos vinte pessoas, entre adultos e crianças, somente homens, distribuídos em colunas, começando pelos mais altos, à frente.

Há um chefe, que dança e comanda os cantos entre duas colunas, com dois porta-bandeiras à paisana. Usavam uniforme simples, composto por calça, paletó e camisa, esta de cor branca ou clara. O calçado não é obrigatório. Cada ator leva um lenço atado sobre a cabeça e, sobre este, um capacete, espécie de cilindro ocado de papelão do tamanho da cabeça, aberto dos dois lados e enfeitados com espelho, aljôfar e fitas de várias cores, com metros até. 

O grupo é incentivado por uma banda, com pandeiro, tamborim ou caixa. Não pode faltar uma flauta de bambu. Os dançantes, donos da festa, têm o dever de acompanhar o reinado como nas festas de Chico Rei, em Ouro Preto. 

Jornalista e advogado conceituado, Paulo Narciso - como Darcy Ribeiro, sociólogo, educador e ex-ministro, este já falecido -, é ardoroso admirador das festas. 

A Festa de Catopês, a mais importante manifestação cultural de Montes Claros, e que se aproxima dos 200 anos, este ano não terá a presença de um dos dançantes que nos últimos mais de 70 anos jamais faltou. O carroceiro Tonão, de presumíveis 80 anos, embora seu documento registre pouco menos, partiu deste mundo. Tonão estava internado, num quadro de complicações respiratórias. Além de Catopê histórico, irmão de João Faria que o antecedera na partida por três anos, era carroceiro. Consta que nos tempos mais difíceis da vida, quando a renda do dia não cobria todas as despesas, ele reservava o primeiro dinheiro para alimentar o burro de sua carroça, explicando que dali vinha o sustento de todos.

Os catopês, marujos e caboclinhos estão consternados, a duas semanas da sua trajetória bicentenária. Hoje ainda, nos ensaios marcados, houve homenagem ao velho companheiro, enquanto o corpo seguia em visitação, em casa, na Vila Telma.

O carroceiro Tonão, cuja generosidade era parelha com sua imensa mão de tratador de burros, foi um dos personagens mais fotografados de toda a já longa história dos Catopês. Como último pedido, o carroceiro doou suas córneas. Todos os ternos de catopês, marujos e caboclinhos se organizaram para cantar o “A retirada, A retirada, eh meus camaradas...”.

Filhos e netos de Tonão e do irmão João Faria, também carroceiro e mais novo do que ele, já substituem os dois irmãos do Terno de Nossa Senhora do Rosário. A tradição da família nas Festas de Agosto é das mais antigas, passada através de sucessivas gerações.

Há poucos anos, no enterro de João Faria, a quem cedeu a liderança do grupo, Tonão encerrou a cerimônia ao pronunciar bem alto, comovido, um “vá com Deus, meu irmão!”. Os Catopês se despediam, e o silêncio foi duradouro, solene, até que todos se retiraram.

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