Edmilson e Adolfo

Manoel Hygino / 14/05/2019 - 06h00

Fundada em 21 de abril de 1963, em Brasília, a Associação Nacional de Escritores cumpre fielmente seu papel, a partir daqueles já distantes dias da Livraria Dom Bosco, na simpática Rua da Igrejinha. Desde os trabalhosos dias de Cyro dos Anjos, primeiro presidente da ANE, até hoje, a entidade angaria prestígio e bom nome, graças a seus dirigentes e crescente número de associados.

A ANE não para, sob a presidência de Fábio de Sousa Coutinho, também à frente da Academia Brasiliense de Letras. Há pouco, lançou seu primeiro e-book, livro digital, comemorativo dos seus 55 anos. Em 2017, já promovera quase duas dezenas de Quintas Literárias, reuniões para ouvir gente da mais alta categoria no ramo das letras brasileiras, reunida a partir de agora em edições que certamente terão exemplares disputados. 

Para celebrar o aniversário do nascimento de Adolfo Caminha, na segunda metade do século XIX, o convidado foi Edmilson, também Caminha, primo em terceiro grau do homenageado. Ele lembrou o pequeno tempo de vida de Adolfo, nascido em Aracati, Ceará, falecendo, menos de 30 após, no Rio de Janeiro. Disse Edmilson: “sua obra o põe entre os grandes valores de um estilo de época relevante na literatura brasileira, o naturalismo, em que brilham outros grandes ficcionistas como Júlio Ribeiro, Inglês de Sousa e Aluísio Azevedo, companhias honrosas”.

Com 16 anos, transferiu-se para o Rio de Janeiro, ingressando na Escola da Marinha, confirmando um das duas vocações dos Caminhas – para viagens oceano afora e para a literatura. Na formatura, Adolfo evoca Victor Hugo, autor de “Os Miseráveis”, falecido há poucos meses, e defendendo vigorosamente a República que logo se proclamaria entre nós.

O imperador estava presente e o ministro da Marinha ordenou ao diretor da Escola punir severamente o rapaz, “este insolente, que acaba de ofender Dom Pedro II”. Este, como de seu feitio e visão, advertiu: “não, não o castiguem, por favor, são arroubos próprios da juventude. Eu também fui jovem, todos fomos...”.

O palestrante relatou a curta vida do militar, que se ergueria, através dos jornais, contra velhas instituições e costumes. Entre eles, o instituto da chibata, a surra de chicote com que a Marinha punia os que se insubordinassem. 

Dessa linha de conduta Adolfo jamais se desviou. Visitou outros países e seguiu escrevendo. Publicou, dentre outros, um livro de poesia “Voos Incertos”, aos 19 anos; em 1887, “Os Contos de Judite” e “Lágrimas de um Crente”. No ano seguinte, o tenente se mudou para Fortaleza, já capital da província do Ceará. Iniciou a fase mais agitada de sua vida, vivendo um romance com a esposa de um oficial do Exército. Um escândalo! Oficiais do Exército percorriam as ruas para humilhá-lo com corretivos físicos. 

Ainda desta vez, teve sorte. O ministro da Marinha chamou-o e o aconselhou: “olhe, meu filho, isso não é comportamento digno de um oficial da Marinha; nós pregamos nosso comportamento, nossas atitudes sociais. Você mais prejudica sua carreira, isso não vai bem. Por favor. Ponha fim a esse caso e voltaremos à nossa vida normal. Você tem um futuro brilhante na Marinha, pela inteligência, pelo talento de que já deu provas”. 

Peripécia amorosa a do escritor-militar, complicações múltiplas. Adolfo retornara a Fortaleza, Izabel abandona o esposo e vai viver com ele. Advertido pela Marinha, o jovem não muda de opinião: “não vou deixá-la, o que me levará a ser expulso. Antes que isso aconteça, pedirei baixa”. E pediu. Rui Barbosa entra em cena. Consegue-lhe um lugar insignificante de barnabé. Passa dificuldades. Tem duas filhas na união. Participa da fundação da Padaria Espiritual, uma academia literária em Fortaleza. O tema, como tema, é fascinante, e a palestra de Edmilson sobre Adolfo empolga. Mas o primo viveu menos de 30 anos, como disse acima. Uma pena. Mas o que legou nas letras convém ser recordado.

 

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