Guignard em BH

Manoel Hygino / 14/09/2021 - 06h00

Encaminhado pelo presidente Rogério Faria Tavares, da Academia Mineira de Letras, recebi “Balões, vida e tempo de Guignard, novos caminhos para as artes em Minas e no Brasil”, de João Perdigão, edição da Autêntica, com patrocínio da CBMM e realização da Secretaria Especial de Cultura do Ministério da Cidadania.

Em mais de trezentas páginas, o autor nos dá uma descrição autêntica (desculpem-me a palavra, coincidente com o nome da editora) da personalidade de Guignard, suas origens, sua carreira nas artes, sua vida de desprendimento do envoltório material, suas alegrias e tristezas, suas vitórias e acidentes de percurso, os amigos. Enfim, um relicário apreciável a respeito de um dos maiores pintores brasileiros do século findo e um livro bom sob todos os aspectos.

Além do mais, Perdigão se deu ao generoso trabalho de, no princípio, incluir um glossário de movimentos artísticos que perpassam no texto, a fim de que os leitores melhor apreendessem sobre as fontes que inspiraram Guignard, ao longo do tempo. No final, acrescentou um segundo glossário de personagens – artistas ou não – que tiveram algum tipo de vínculo com o pintor, no decorrer de mais de sessenta anos de vida.

E não só de pessoas, pois ainda de experiências artísticas que contribuíram de algum modo para que o pintor fosse o que se tornou, querido e respeitado no Brasil e no exterior. Não faltam informações sobre os desvios pessoais de Guignard no consumo de álcool e das ressalvas com que foi recebido por companheiros de pintura de sua época, mas também por críticos. Tudo muito útil para que se tivesse, como se tem, um juízo correto e imparcial sobre o artista, às vezes, considerado mineiro.

E há razão. Guignard nasceu praticamente com Belo Horizonte; ele, em Nova Friburgo, no Estado do Rio, em 1896, e a capital mineira, como tal, inaugurada no ano seguinte – 1897. Era o tempo ainda do Antônio Conselheiro, cujo reduto final foi extinto exatamente naquele ano. Um tempo de transformações bem profundas, que se estenderiam à economia, quando o Brasil começava a deixar de ser estritamente agrícola para ingressar na industrialização.

Guignard nasceu para ser de Belo Horizonte, fez-se personagem identificado na cidade, andava por suas ruas, frequentava a elite e se interessava pelos humildes. João Perdigão resgata um caso. Caminhando para a praça da Liberdade, o pintor viu um homem na calçada do Parque Municipal, quando fazia um frio intenso. Não teve dúvida: tirou seu elegante casaco, comprado na Europa, e o deu ao desconhecido. Junto quase lhe foram entregues os documentos pessoais.

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