Igreja e Judiciário

Manoel Hygino / 11/01/2019 - 07h00

Francisco, pontífice da Igreja Católica Apostólica Romana, primeiro e único, mas não é o rei Momo, que são muitos por aqui, dependendo do local e época. O pontífice tampouco torce pelos grandes times de futebol, como o Boca, pois prefere o San Lorenzo. 

Mas o papa, na passagem de ano de 2018, sem maiores explicações, aceitou a renúncia do porta-voz da Cúria, Greg Burke, americano, e a sua assistente, Paloma Garcia Ovejero, espanhola. Imediatamente nomeou um diretor interino, Alessandro Gisotti, para coordenador de mídias sociais na área de comunicação.

A atitude não é novidade. Já no Natal de 2014, Francisco tomara semelhante iniciativa, em mensagem pelo nascimento de Jesus, ao denunciar “15 doenças graves” que afetam (ele usou o verbo no nosso presente do indicativo) a Cúria Romana. Com dezenas e dezenas de cardeais, bispos e monsenhores presentes, apresentou a lista. Entre as enfermidades, rivalidades, fofocas, “Alzheimer espiritual”, “esquizofrenia existencial” e, até, a falta de humor. Declarou peremptoriamente: “como qualquer corpo humano, a Cúria sofre doenças, e é preciso aprender a curá-las”. 

Com expressões impactantes, como publicou a mídia, que provocam desconcerto entre membros da Cúria e funcionários da Santa Sé, o papa analisou cada patologia e fez um apelo à reflexão, ao arrependimento e à confissão. O primeiro mal referido foi o de membros do alto escalão se sentirem imortais, autossuficientes e privados de autocrítica. Ponderou: “uma Cúria que não faz autocrítica, não se atualiza e não tenta melhorar é um corpo doente”. 

Além de petrificação mental e espiritual e da falta de coordenação – que faz a igreja ser uma “orquestra que só produz ruído” –, Francisco citou o “Alzheimer espiritual”, que leva o apóstolo a esquecer o seu fervor inicial. Ele incluiu entre os males a “esquizofrenia existencial”, que acomete aqueles que se esquecem de que estão a serviço de “pessoas concretas” e se limitam a realizar trâmites burocráticos, “dependentes de seus próprios caprichos e manias”. “Curar esta doença muito grave é urgente e indispensável”, observou. O tom de sua fala foi severo quando citou a “fofoca”, uma “erva daninha”, e convocou todos a se protegerem desse “terrorismo”, por conta dos estragos que causa. Outra patologia citada foi o “rosto fúnebre”, pois o apóstolo deve ser “pessoa amável, serena e entusiasmada. Deve transmitir alegria. Que bem faz uma boa dose de humor!”. 

Francisco lembrou que um dia leu que os sacerdotes são como aviões: “só são notícia quando caem. E quanto mal pode causar a todo corpo da igreja apenas um sacerdote que caia”, disse, referindo-se indiretamente aos escândalos sexuais e financeiros da igreja. Ao final de sua mensagem, Francisco afirmou que “a cura é fruto da tomada de consciência da doença”. O papa pediu que os bispos e cardeais permitam que o Espírito Santo inspire as suas ações, em vez de confiarem apenas em suas próprias capacidades intelectuais. 

Um magistrado, que lera o texto de 2014, considera, com tristeza, que se poderia entre nós trocar a palavra “Igreja” por “Poder Judiciário”, pelos males que sofrem alguns de seus setores. 

 

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