Noite no Mangabeiras

Manoel Hygino / 04/09/2019 - 06h00

Habitar ou não habitar o Palácio das Mangabeiras, na Serra do Curral, que circunda parte de Belo Horizonte. Esta a pergunta que se fez o governador Romeu Zema, tão logo empossado. Não queria morar em palácio, para dar ar de simplicidade pessoal e de seu governo.

Escolhido para chefiar a administração do Estado, também Juscelino sentiu necessidade de ter, fora do burburinho da cidade, das honrarias do Palácio da Liberdade, um local que lhe permitisse espairecer, que propiciasse condições de descanso ao administrador roído pela azáfama. Assim, surgiu o Mangabeiras, que virou palácio, mas não passava de casa ampla, sem luxo e pompa, de onde se descortinava a Belo Horizonte de então. Eu despachei lá, com Israel Pinheiro, algumas vezes e posso afiançar a modéstia da moradia.

Getúlio Vargas, depois do assassinato, na rua Tonelero, Copacabana, do major Rubem Florentino Vaz, em 5 de agosto de 1954, vivia sob o cerco dos oficiais das Forças Armadas, que exigiam providências drásticas, talvez a deposição. Veio, então, a Belo Horizonte, no dia 12, para a inauguração da Mannesmann, sendo recebido com carinho.

Longe do ambiente pesado da capital da República, Vargas se acomodou no Mangabeiras. Após todo o cerimonial cumprido, recolheu-se a um apartamento. Quietude não sentia. Seu estado de espírito tampouco o permitia. Os ventos sopravam fortes. De morro dos ventos uivantes, era o ambiente. Sem conciliar o sono, quis saber o porquê de tanto ruído. Geraldo Ribeiro, motorista de Juscelino (e que com ele morreria no acidente da Via Dutra, em 1976), privava da intimidade do governador, e funcionava como uma espécie de mordomo. Ele explicou: ali no alto ventava muito e agosto trazia consigo rajadas fortes.

Preocupado, Geraldo se dirigiu novamente, ao aposento de Getúlio, horas depois. Contou que o encontrara ajoelhado, junto ao leito, e chorando. O testemunho está inserido também em “Esse velho vento de aventura”, livro de Paulo Pinheiro Chagas.

Tancredo Neves não confirma integralmente a versão. Diz que Geraldo Ribeiro vira apenas Getúlio andando pelo quarto e fumando charuto. Em determinado momento, deparara a cena insólita: o presidente se encontrava junto ao leito, como se orasse. Tancredo acrescentou: Getúlio “nunca chorou”. Murilo Badaró observa que se propalava que o presidente era ateu.

Naquele dia 12, Vargas passou por um refrigério em Minas. Mas a capital federal fervia. Já nos primeiros instantes do dia, o brigadeiro Nero Moura, ministro da Aeronáutica, assinou a portaria que instaurava o IPM – Inquérito Policial Militar para apurar o crime de Tonelero.

Não houve prisão. Getúlio apenas se matou no dia 24 seguinte. Havia indignação e revolta de muitos segmentos do povo. Vargas deixou a vida para entrar na história. Todos os demais personagens da hora trágica que viveu a nação são mortos. O palácio das Mangabeiras parece que se tornou efetivamente Palácio. Mas um presidente da República ali passou sua última noite. Fora do Catete – o outro palácio do qual foi levada a urna fúnebre para a terra natal, São Borja.

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