Poesia e dor

Manoel Hygino / 14/01/2020 - 06h00

Após deixar a presidência da Academia Mineira de Letras, a primeira (e única) mulher a exercer o cargo ao longo da centenária existência do sodalício fundado em Juiz de Fora, a acadêmica Elizabeth Rennó cuidou de lançar o seu novo livro de poesias – “Quântico”. São 123 páginas, com que a Editora Aldrava Letras e Artes, de Mariana, oferece a oportunidade de se apreciar a poesia da autora, nascida em Carmo de Minas, no Sul do Estado.

É o Estado que ali se encontra, porque – no dizer de Elizabeth – “Quântico, alegre e triste, desesperançado mas confiante na Palavra Maior, a que dirige as nossas vidas”. Para Andreia Donadon Leal, em prefácio, no livro cada poema, antes publicado por outros meios e em outras épocas, vagava como uma trajetória inespecífica. A aglomeração dessas partículas em livro conduz o processamento semiótico a partir do conjunto, mesmo que o olhar esteja voltado para uma partícula de um poema ou para um poema específico”.

Há uma “Viagem da Memória”, como um retorno ao lugar de nascimento: “Volto à cidade primeira”, as mesmas casas de janelas azuis, as mesmas ruas estreitas todas ali permanecem. A estátua continua no centro do jardim envelhecida e desgastada, ao lado do coreto. A igreja centenária será ainda procurada no turbilhão de hoje? Tudo ficara engessado na corrida dos dias. No entanto eu já não era a mesma, mil ocorrências, anos tempestuosos eram passado perdido nas marcas profundas do amargor da saudade persistente de um tempo/que não volta mais”.

Há muito de doloroso nestas páginas. As de nosso dia a dia e lugar e as, lá longe, no Oriente, de que brotam as lições de tolerância e amor. Elizabeth evoca uma cidade sofrida nos embates de uma região que não encontra paz: Aleppo:

“Ruídos assustadores sobre a multidão sedenta, sem teto ou agasalho, com frio e com fome, reunida neste curral humano que a desespera. As bombas destruíram os reforços salvadores. Caminhões lotados voaram pelos ares, alimentos, remédios, água se fizeram carvão pulverizado junto a corpos sobrepostos no chão inóspito e hostil. Sem uma vírgula, não há pontuação. Assim se prova a desumanidade, a selvageria e o homem. Irmão do lobo acorrentado, o aniquilamento de uma raça morena na tragédia continuada de Auschwitz em que se esquece, mais uma vez, a palavra de Cristo”.

A morte não escolhe lugares e pessoas. Ela comparece indistintamente num pedaço do mundo, bem mais perto do que nós do lugar em que nasceu Jesus. Um grande avião ucraniano deixou 176 mortos naquele recanto do planeta que insiste e persiste, através de séculos, em fazer maldade.
Um avião ucraniano caiu na capital do Irã logo após decolar do aeroporto internacional de Teerã, em plena madrugada. Sem sobreviventes: 82 iranianos, 63 canadenses, 11 ucranianos, dez suecos, quatro afegãos, três alemães e três britânicos.

O Irã não entregará a caixa preta. O ouro dispara. Pouco interessa. Os que perecem nada reivindicam. Os demais países envolvidos nos interesses do Oriente trocam acusações. Defuntos não falam, não postulam. A poesia expressa dores e verte lágrimas. É da condição humana.
Este é o mundo, assim somos.

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Comentários