Medalha, medalha, medalha...

Mateus Simões / 05/04/2021 - 08h09

Elas têm um lugar efetivo nas competições atléticas e posso entender sua função nas relações internacionais ou nos ambientes militares, em que representam grandes feitos, que mereçam ser marcados pela distinção honorífica de concessão de medalhas, e mesmo no ambiente institucional privado, em que marcam grandes serviços prestados a uma categoria ou a uma causa, mas no ambiente público elas foram vulgarizadas ao ponto de se chegarmos a cotas de medalhas a serem oferecidas de tempos em tempos. Não se chega ao nome pelos méritos do que possa ter feito, mas pela data preordenada de entrega de um número preconcebido de medalhas a pessoas que tem de constar em uma lista sem profundidade. Contem quantos medalhados estão presos ou respondendo a processos por corrupção, homicídio e tráfico em sua cidade, estado ou no país e rapidamente a conclusão é alcançada: a vulgarização tira qualquer valor da honraria.

É por isso que eu, sistemática e continuamente, recuso terminantemente receber ou conceder medalhas. Não faço indicações individuais, não atuo nos comitês de indicação, colegiada e, definitivamente, não recebo medalhas. Isso é uma postura pública que adoto há anos, sobre a qual tenho textos e discursos publicados, mas que ainda está longe de alcançar os resultados que pretendo.

Basta dizer que desde que passei a integrar a equipe do governador Romeu Zema já fui convidado por vários diferentes órgãos, em diversas oportunidades, para que pudesse receber medalhas, ou indicar pessoas a serem agraciadas. Mais estranho, o convite em regra se inicia com um “eu sei que o senhor não concorda com entrega de medalhas, mas...” Eu não me ofendo com isso, por óbvio, explico que me sinto muito lisonjeado com a lembrança, mas que é uma questão de princípio.

“A cultura come a estratégia no café da manhã”. A frase atribuída a Peter Druker sobre o peso da cultura nas instituições se aplica de forma universal e a mensagem é clara: é preciso mudar a cultura se pretendemos ter resultados alinhados com a estratégia.

Em meio à pandemia, com proibições de aglomeração e milhares de pessoas mortas, continuo assistindo quem discuta as medalhas, colares, diplomas de honra... Sua concessão, sua entrega, as cerimônias virtuais. Isso revela a profundidade o enraizamento da cultura dos títulos honoríficos entre nós. Vou continuar falando do tema, esperando que com o tempo eu alcance a cultura enraizada na profundidade do Estado Brasileiro. Precisamos de serviço público mais do que de honras públicas.

 

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