O fim do respeito ao outro

Mateus Simões / 12/04/2021 - 06h00

 

Liberdade é um assunto sério para mim. Aliás, minha vida acadêmica, minha atuação política, minhas relações pessoais, toda a minha existência é moldada a partir desse conceito: a liberdade é que me distingue dos animais, que me aproxima da racionalidade e que me conecta com Deus...

 

O pensar racional é um exercício de liberdade, pois quem não pode escolher, inquirir, investigar, divergir, não usa da razão, mas se diminui a uma existência autômata.

 

Essa liberdade racional é que me demonstra a necessidade de submeter a minha própria existência a limitações externas, exatamente no ponto em que meus atos possam colocar a liberdade do outro em risco. É pelo meu respeito à liberdade enquanto conceito que, por exemplo, acato uma restrição de circulação ou o uso obrigatório de máscara, por entender que minha existência não pode inviabilizar a dos outros, ou comprometer com isso a sua vida que é a premissa primeira da possibilidade de exercício da liberdade de cada um.

 

Por isso é que me assusta o autoritarismo que o momento de exacerbação política, ideológica e, pelo visto, sanitária, tem imposto sobre nós.

 

Eu não me alinho com o pensamento de esquerda, exatamente pelo valor que dou à liberdade enquanto uma expressão individual, mas por isso mesmo jamais questionei ou duvidei do direito de alguém votar na esquerda.

 

Eu não acredito no socialismo ou nas suas versões atenuadas como caminho na direção da prosperidade, pois todos eles limitam a potencialidade humana ao homogeneizar a sua existência e desestimular, com isso, o mérito e a superação. Nem por isso recuso o direito de uma pessoa estudar, defender e praticar essas ideias.

 

Eu escolhi acreditar em Deus, mas nem por isso ataco aqueles que não percebem a mesma verdade que eu.

 

Por qual razão, então, deveria tolerar com tranquilidade que ministros zombem da crença dos outros? Por que motivo devo aceitar que especialistas de TV decidam se eu posso ou não acreditar no tratamento oferecido por um médico? Quando PHDs de grupos de whatsapp passaram a poder definir em que posso ou não acreditar?

 

Em um debate recente ouvi que “no meio de tanta ignorância é necessário quem impeça a propagação da estupidez”. Eu nunca tentei interromper o direito de os outros se nutrirem da estupidez que escolheram, argumentei, mas nunca pretendi substituir o direito de escolha de ninguém, por qual razão deveria admitir que me tolham nas decisões que não atingem nem prejudicam qualquer outra pessoa?

 

Meu convite é para que você reflita se a defesa da sua opinião já deixou de ser um hino à razão para se converter em ódio aos que discordam de você. Esse é o limite que nos separa do fim da liberdade e, quando ela se for, nós seremos os próximos.

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