Escravos da tecnologia?

Sobre Rodas / 13/04/2019 - 06h00

A cada lançamento de veículo chama a atenção a presença maior de sistemas de ajuda ao condutor, com as mais variadas funções e siglas. Começa pelas câmeras de ré, passa pelos sensores de detecção de pontos cegos e, nos modelos mais avançados (e caros), inclui o estacionamen to autônomo ou o ajuste automático na faixa quando, por algum motivo, ele começa a invadir o espaço alheio, trazendo riscos a quem está no entorno.

Fruto do desenvolvimento tecnológico e das possibilidades cada vez maiores de integração entre sistemas e algo louvável na busca por um trânsito mais seguro, previsível e organizado. Nesse aspecto, quanto mais cedo esse arsenal estiver disponível nos modelos de entrada (ainda que como opcionais), melhor. Ou até se mostrem tão eficientes a ponto de se tornarem obrigatórios, como hoje são os airbags dianteiros e o ABS nos carros zero-quilômetro.

Só que existe um aspecto para o qual muita gente ainda não deu a devida atenção: sei que no fundo, o objetivo de montadoras e outros conglomerados é desenvolver veículos que façam tudo sozinhos. Mas, enquanto não é o caso, existe um risco muito sério de nos tornarmos dependentes de ajuda das máquinas e preguiçosos para fazer o que se deve – e o que é feito hoje sem a ajuda dos computadores.

Olha que eu nem falo das balizas, terror de 11 entre 10 candidatos à habilitação (e mesmo para muita gente com anos de carteira). Nesse caso, tanto melhor que o carro gire o volante por conta própria e calcule se há espaço para a manobra, além de evitar esbarradas na dianteira e na traseira.

Penso em outras funções que exigem foco e atenção total, e que podem acabar gerando uma geração de motoristas preguiçosos e mal-acostumados. “Não estou na faixa? Deixa que o computador corrige”. Ou “nem vou me preocupar com quem vai à frente porque o piloto automático e o freio autônomo entram em ação no caso de necessidade”.

Quem acompanha esse espaço sabe como me preocupa a postura de alguns motoristas que, mais preocupados com o smartphone ou a central multimídia, parecem esquecer da realidade em volta. E quanto mais o veículo puder fazer que dispense a ação de quem vai ao volante (ou corrija eventuais cochiladas), tanto mais riscos. Goste-se ou não, o dia a dia de nossas ruas é como a pilha das peças de dominó – é empurrar uma e várias outras vão caindo em sequência.

Sem contar que... máquinas falham. Não há como garantir 100% de eficiência em todas as circunstâncias. Há quem diga que vários desastres recentes com aviões de passageiros têm origem justamente no excesso de eletrônica embarcada, que transforma o piloto em alguém que só entra em ação no caso de uma emergência. Por que seria diferente sobre quatro rodas? Lógico que é interessante sonhar com um futuro quase de ficção científica mas, enquanto isso, é fundamental manter o controle e a atenção sem distrações.

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