Barbárie Futebol Clube

Thiago Pereira / 19/09/2018 - 06h00

O assunto de hoje deveria ser, naturalmente, o jogo de mais tarde na Bombonera. Poderia até dar alguns pitacos futebolísticos sobre o “clássico” Amigos de Ezequiel X Atlético- MG, ocorrido no Mineirão, mas, dada a diferença de importância e relevância entre os dois episódios, naturalmente a escolha recairia sobre o gigantesco confronto (em todos os aspectos) de hoje. 

Mas não será nem um nem outro. 

Gostaria de oferecer meus centavos sobre o acontecido na Toca III (mas distante do campo) no último domingo. Falo da “canção” que parte da torcida adversária entoou, uma coisa tão primitiva que não vale a pena ser reproduzida novamente aqui. 

Mas vocês sabem do que estou falando: tem a ver com “matar” seres humanos chancelados por um “candidato” que representa exatamente este sentimento. Tem a ver com a materialização da falência do humanismo (aquele que a gente encontra nos comentários de internet), materializado em um cântico nos estádio de futebol.

Destaco aqui algo que acredito ser importantíssimo: o tristíssimo episódio foi protagonizado desta vez por eles; mas não significa que é uma exclusividade. Pelo contrário, já que a homofobia não escolhe camisa de clube, a intolerância se sente confortável usando qualquer escudo. 

O fascismo não escolhe time, porque ele topa apenas um jogo, somente uma vitória, crê em apenas um resultado. Ele quer massacrar o Outro, invisibilizar a alteridade, apagar as diferenças a qualquer custo. 

A cadela do fascismo está sempre no cio, os cães da tortura estão sempre excitados independente do campeonato disputado. Ela ladra em campo assegurado pela coleira da barbárie: um adorno que não é do Atlético-MG, não é do Palmeiras, não é do Tottenham, não é de nenhum time específico. 

Como já escrevi aqui, o futebol não é divorciado da vida, assim como não são os filmes, as músicas, as redes sociais. Tudo isso diz de uma forma que encontramos que interagir e mapear o mundo que vivemos. Refletem com alguma precisão o que escolhemos para ser, orienta e organiza a forma como nos narramos diante do universo. Portanto, não ele existe como uma suspensão moral, um espaço onde se “liga e desliga” os discursos criminosos. Ser um arremedo de ser humano num estádio de futebol não te faz menos arremedo, não te faz menos apequenado; aliás, parece apenas ampliar esta performance patétical.

O futebol merece vigilância ética, como tantos outros lugares. De todos os torcedores, que qualquer time. Contra certas coisas, a rivalidade clubística deve ser esquecida em prol de algo maior: a civilidade coletiva. 
 

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